Parte 4: Helena reaparece viva na adega e revela um plano sombrio envolvendo a própria filha e um segredo oculto da família
O estalo do gatilho sendo puxado ecoou pela adega como uma sentença de morte, mas a bala nunca foi disparada. Um estrondo violento abalou o teto de madeira e pedra acima deles, seguido pelo som ensurdecedor de um alarme de incêndio que começou a tocar no andar superior.
Poeira e lascas de gesso caíram sobre os ombros de Mateus enquanto a luz de emergência piscava loucamente, lançando sombras distorcidas nas paredes. Gustavo instintivamente desviou a arma por uma fração de segundo, olhando para o teto. Era a brecha que Mateus precisava.
Em um arranque desesperado, Mateus lançou-se para a frente, atingindo o médico na cintura com toda a força do seu corpo. Os dois rolaram pelo chão coberto de vinho e cacos de vidro. O revólver escapou da mão de Gustavo, derrapando pelo piso liso até parar aos pés de Vanessa.
— Pegue a arma, Vanessa! Mata ele! — urrou Gustavo, tentando desferir um soco no rosto de Mateus.
Mateus esquivou-se do golpe e desferiu uma cotovelada violenta no queixo do médico, sentindo o osso estalar sob o impacto. A dor cegante fez Gustavo recuar, soltando um gemido abafado. Mateus virou-se rapidamente, o peito arfando, a busca desesperada pelo olhar da filha.
Sofia continuava estática, mas os olhos da menina não estavam no pai e nem na arma no chão. Ela olhava fixamente para o topo da escada.
Vanessa correu e se ajoelhou, agarrando a coronha do revólver com as duas mãos trêmulas. O sangue que escorria do seu braço deixava a fita do cabo escorregadia. Ela apontou a arma com as mãos oscilando violentamente entre Mateus e Gustavo.
— Não dê mais nenhum passo, Mateus! — gritou ela, a voz histérica falhando no ar denso de fumaça que começava a descer pela escada. — Se a Helena está viva, ela mentiu para mim também! Ela prometeu que o dinheiro era meu!
— Ela usou você, sua idiota! — esbravejou Gustavo, limpando o sangue que escorria da sua boca enquanto se levantava lentamente. — Helena planejou a própria morte desde o dia em que descobriu quem o pai do Mateus realmente era. Você acha que ela deixaria uma testemunha viva?
O ar na adega tornou-se irrespirável à medida que uma fumaça preta e espessa se acumulava perto do teto. Mateus aproveitou a hesitação de Vanessa e deslizou pelo chão ensanguentado até Sofia, envolvendo a filha em um abraço protetor. A menina não reagiu, a pele fria como mofo de parede.
— Sofia, olhe para mim — sussurrou Mateus, segurando o rosto pequeno da filha entre as mãos sujas de poeira e ferrugem. — Nós precisamos correr. Agora!
— Papai… — a garotinha finalmente pronunciou, a voz sem qualquer vestígio do pânico infantil que tinha momentos atrás. Era um tom gélido, distante, quase robótico. — Ela não está no topo da escada. Ela já está aqui dentro.
Um calafrio percorreu a espinha de Mateus. Ele olhou ao redor do cômodo escuro. As sombras pareciam se mover entre as fileiras de barris de carvalho.
De repente, um estalo metálico ressoou vindo do fundo da adega, em uma parede falsa de alvenaria que Mateus sempre julgara ser sólida. A parede de tijolos rangeu e cedeu alguns centímetros para dentro, revelando uma passagem secreta iluminada por uma fraca luz amarela.
Vanessa deu dois passos para trás, a arma ainda engatilhada, os olhos arregalados de pavor.
— Quem está aí? — gritou ela, a voz engasgada pela fumaça. — Eu atiro! Eu juro por Deus que atiro!
Da escuridão do túnel oculto, uma figura elegante emergiu devagar. Usava um sobretudo cinza-escuro, os cabelos negros perfeitamente alinhados até os ombros. O rosto, impecável e sem uma única marca, era inconfundível.
Era Helena.
Mateus sentiu o ar sumir completamente dos seus pulmões. A esposa que ele chorara por meses, a mulher cujo corpo ele vira ser sepultado sob a chuva, estava de pé a menos de três metros dele, viva, respirando e sorrindo com um desprezo glacial.
— Você sempre foi tão previsível, Vanessa — disse Helena, a voz aveludada ecoando pela estrutura de pedra. — Acreditou em cada palavra que eu escrevi naquelas cartas falsas.
— Helena… como? — articulou Mateus, o nó na sua garganta quase impedindo as palavras de saírem. — O caixão… os exames médicos…
— O Gustavo fez um excelente trabalho simulando a minha parada cardíaca, meu querido — respondeu Helena, nem sequer olhando para o médico, que permanecia imóvel perto dos barris. — Mas ele cometeu o erro de achar que a parte dele no plano ainda era necessária.
Antes que Gustavo pudesse reagir, Helena ergueu um pequeno dispositivo preto na mão esquerda e pressionou um botão redondamente vermelho.
Um estalo abafado soou dentro da parede ao lado de Gustavo. Uma descarga elétrica de alta voltagem saltou de um cabo desencapado exposto na alvenaria, atingindo o médico em cheio no tórax. Ele soltou um urro de dor desumano, o corpo contorcendo-se em espasmos violentos antes de desabar pesado sobre as garrafas quebradas, imóvel.
Vanessa soltou um grito agudo de pânico e apontou o revólver diretamente para a cabeça de Helena.
— Fique longe de mim! — urrou Vanessa, os dedos apertando o gatilho. — Eu acabo com você agora mesmo!
Helena nem piscou. Manteve o olhar fixo em Vanessa, com um sorriso sereno e aterrador.
— Atire, Vanessa. Mas você deveria saber melhor do que ninguém que essa arma estava no cofre do meu escritório. Onde eu deixo apenas munição de espoleta vazia.
Vanessa apertou o gatilho instintivamente. O som de um clique metálico e seco ecoou na adega. Nada aconteceu.
O horror nos olhos de Vanessa foi absoluto. Ela largou o revólver inútil, o objeto batendo ruidosamente no chão.
Helena deu mais um passo à frente, ajustando as luvas de couro negro. Ela finalmente desviou os olhos de Vanessa e olhou para Mateus e para a pequena Sofia, que continuava abraçada às pernas do pai.
— Você achou que eu envenenei você por dinheiro, Mateus? — perguntou Helena, a voz descendo para um tom susurrado e perigoso. — Eu nunca me importei com a herança dos dinamarqueses. Eu precisava que você pensasse que eu estava morta para poder encontrar o que o seu pai escondeu sob o piso do quarto da Sofia.
Mateus parou de respirar. Ele olhou para a filha, cujas mãos agora seguravam firmemente uma pequena chave de bronze antiquada que ela tirara do bolso do próprio casaco — uma chave que Mateus nunca tinha visto antes.
Sofia olhou para o pai, ergueu a chave de bronze e, com um sorriso calmo e idêntico ao de Helena, sussurrou:
— Ela mandou eu guardar para este momento, papai.