Parte 4: Mariana enfrenta o incêndio e as revelações sombrias de Mateo enquanto descobre a terrível verdade sobre a sua gravidez e o bebê que carrega nos braços
A arma nas mãos de Mateo tremia, mas o seu olhar era de uma pedra gélida, desprovido de qualquer resquício do homem carinhoso com quem Mariana havia casado. O sangue que escorria da sua coxa empapava a calça jeans, pingando no metal quente da escada de emergência, mas ele parecia não sentir dor. Lá em baixo, as chamas alimentadas pela gasolina de Helena subiam rápido, estalando e devorando os degraus, encurralando Mariana num corredor de fogo e ferro.
— Abaixe essa arma, Mateo! — gritou Helena, dando um passo para trás na direção do abismo, mas o isqueiro continuava aceso na sua mão trêmula. — Você é um monstro! Um bastardo doentio que destruiu tudo!
— Calada! — urrou Mateo, e o som da sua voz ecoou pelo poço da escada, abafando o ruído distante das sirenes. Ele deu dois passos trôpegos para baixo, ficando no patamar logo acima de Mariana. — Você arruinou a minha vida desde o dia em que eu nasci, Helena. Mas a empresa, o dinheiro… tudo isso é meu por direito.
Mariana apertava Tiago contra o peito com tanta força que o bebê soltava pequenos gemidos sufocados. A tela do celular ainda brilhava na sua mão esquerda com a mensagem aterrorizante. Ela olhou para Mateo, depois para a foto dobrada no seu sutiã, e por fim para os olhos insanos do marido.
— A mensagem… — a voz de Mariana saiu como um sussurro rasgado pela fumaça. — Mateo, quem me mandou essa mensagem? O Tiago… de quem é este bebê?
Mateo lentamente desviou o cano da arma de Helena e o apontou para o peito de Mariana. Um sorriso amargo e quase pálido surgiu nos seus lábios sujos de fuligem.
— Você nunca deveria ter mexido naquele cofre, Mariana — disse ele, a voz terrivelmente calma. — O Tiago não é meu filho. E também não é seu. Você achou mesmo que a gravidez que você perdeu no ano passado foi um aborto espontâneo?
Um choque elétrico percorreu a espinha de Mariana. O ar sumiu dos seus pulmões, não pela fumaça, mas pela revelação avassaladora. O hospital, a cirurgia de emergência, o luto de meses… tudo tinha sido uma farsa tecida com precisão cirúrgica. Ela olhou para o rosto do bebê nos seus braços, os olhos azuis e brilhantes que ela tanto amava, sentindo o mundo ruir sob os seus pés.
— O que você fez? — gritou ela, as lágrimas lavando a fuligem no seu rosto. — O QUE VOCÊ FEZ COM O MEU FILHO?
— O seu filho de verdade morreu no parto — interveio Helena, rindo de forma histérica enquanto o fogo começava a lamber a barra da sua calça. — E esse demónio do meu filho comprou a criança de uma clínica clandestina na Ucrânia para garantir a sucessão do império da família! Ele usou você, Mariana! Ele usou todos nós!
— Cale a boca! — gritou Mateo, apertando o gatilho.
Um estampido seco cortou o ar. O projétil atingiu o ombro de Helena, fazendo-a dar um passo em falso para trás. O isqueiro aceso escapou dos seus dedos, caindo diretamente sobre o galão de combustível aberto no chão.
Uma explosão de fogo alaranjado irrompeu instantaneamente no patamar inferior. As chamas subiram como uma cortina mortal, engolindo Helena num piscar de olhos e cortando completamente qualquer chance de descer a escada. O calor infernal empurrou Mariana contra a grade de proteção do quinto andar.
— Mariana, dá-me o garoto! Agora! — ordenou Mateo, avançando pela fumaça com a arma erguida, os olhos fixos na criança. — O documento de adoção ilegal está com você! Se a polícia pegar esse bebê, eu perco tudo!
— Você é um psicopata! — gritou Mariana, recuando até onde o metal permitia. Olhando para baixo, a fumaça preta impedia de ver o chão, mas o calor das chamas abaixo era insuportável.
Mateo deu mais um passo e agarrou brutalmente o braço de Mariana, tentando arrancar Tiago dos seus braços. Ela lutou com todas as forças que lhe restavam, usando o próprio corpo como escudo para proteger o bebê. No meio do puxa-empurra desespero, o celular de Mariana caiu, rolando pelos degraus até desaparecer no fogo.
— Me dá a criança! — vociferou Mateo, desferindo um tapa violento no rosto de Mariana.
O impacto fez a visão dela escurecer por um milissegundo, mas a raiva de mãe — mesmo descobrindo que não era a mãe biológica — falou mais alto. Com um movimento rápido e desesperado, Mariana enfiou a mão no bolso do sobretudo dele, puxou o pino do extintor manual preso à parede da escada e disparou o jato de poeira química diretamente nos olhos de Mateo.
Ele soltou um urro de dor, largando a arma enquanto levava as mãos ao rosto cegado pelo pó branco. A arma caiu no metal, quicou duas vezes e rolou até os pés de Mariana.
Sem hesitar, ela chutou a pistola para o abismo em chamas, pegou o bebê com firmeza e correu para a única porta de acesso que restava: a entrada do quarto andar, cujo trinco estava parcialmente derretido pelo calor. Usando todo o peso do seu corpo, Mariana arremessou-se contra a porta de madeira reforçada.
A estrutura cedeu com um estalo seco, e ela caiu para dentro do corredor escuro do quarto andar, fechando e trancando a porta de ferro por dentro para impedir que Mateo a seguisse.
O silêncio do corredor do prédio abandonado era perturbador, quebrado apenas pelo som distante das sirenes e pelo estalar do fogo no andar de cima. Mariana recostou-se na parede fria, arfando, o coração parecendo prestes a explodir no peito. Ela olhou para o bebê, que finalmente parara de chorar e a encarava com olhos curiosos.
Foi quando um som metálico reverberou no final do corredor escuro.
Passos lentos e firmes aproximavam-se na penumbra. Mariana prendeu a respiração, encolhendo-se contra a parede. Das sombras do corredor, emergiu uma figura alta, vestindo um terno impecável, perfeitamente limpo, contrastando com o caos do incêndio.
O homem parou a poucos metros dela, tirou os óculos escuros e revelou olhos idênticos aos do bebê nos braços de Mariana.
— Você demorou, Mariana — disse o homem, com uma voz grave e impecavelmente serena. — Obrigado por guardar o meu filho. Agora, devolva o herdeiro legítimo antes que o Mateo descubra que eu nunca estive naquele avião que caiu há cinco anos.