Parte 9։ Helena descobre a macabra transformação de seu filho e encontra o verdadeiro Gabriel acorrentado na mina ancestral antes de ser encurralada pelo impostor para o início de um ritual mortal

Parte 9։ Helena descobre a macabra transformação de seu filho e encontra o verdadeiro Gabriel acorrentado na mina ancestral antes de ser encurralada pelo impostor para o início de um ritual mortal

 Parte 9։ Helena descobre a macabra transformação de seu filho e encontra o verdadeiro Gabriel acorrentado na mina ancestral antes de ser encurralada pelo impostor para o início de um ritual mortal

A maçaneta de metal girou devagar, emitindo um rangido seco que parecia perfurar os tímpanos de Helena. O som contínuo do monitor cardíaco ao lado do leito cortava o ar com seu apito estridente e linear, um lembrete implacável de que o coração em seu peito já não batia. No entanto, ela sentia o sangue gélido fluindo por suas veias, pesado e espesso como o óleo das engrenagens daquela caverna.

O choro do bebê no berço acrílico aumentou de intensidade, um ganido agudo e desesperado que fazia o espelho do quarto vibrar. Helena tentou gritar, clamar pelo filho, mas de sua garganta saiu apenas um sopro seco de poeira e fuligem. Suas mãos, presas ao colchão por tiras de contenção de couro gasto, tremiam violentamente. Ao olhar para os próprios dedos, percebeu que as pontas haviam se tornado completamente negras, como se tivessem sido carbonizadas de dentro para fora.

A porta finalmente se abriu por completo.

Entrando no quarto com passos lentos e medidos, trajando um jaleco médico coberto por manchas escuras e secas, estava o seu pai. Ele parecia décadas mais jovem do que na noite em que desaparecera na mina, sem qualquer cicatriz ou sinal de velhice, mas seus olhos possuíam a mesma escuridão abissal que Helena acabara de ver em seu próprio reflexo.

— Você fez a escolha errada, minha filha — disse ele, a voz calma e aveludada, embora não houvesse movimento algum em seus lábios. — Matar o tempo no relógio de Gabriel não destruiu o pacto. Apenas transferiu a dívida.

— Cadê o Gabriel? — Helena conseguiu articular, a voz saindo metálica, como se duas vozes sobrepostas falassem através de sua boca. — O que você fez com o meu marido?

O homem sorriu, aproximando-se do berço acrílico. Ele estendeu a mão pálida em direção ao recém-nascido, cujos gritos cessaram no exato instante em que os dedos do avô tocaram o pequeno cobertor azul. Helena sentiu um calafrio mortal espalhar-se por sua espinha quando o bebê virou a cabeça devagar em sua direção.

A criança não chorava mais porque não respirava. No centro de seu pequeno peito, visível através do tecido fino da roupa, uma luz avermelhada e ritmada piscava no ritmo exato de um relógio mecânico.

Tique. Taque. Tique. Taque.

— Gabriel cumpriu o papel dele no ciclo, assim como as centenas de versões dele que vieram antes — o pai de Helena explicou, pegando a criança nos braços com uma delicadeza perturbadora. — Ele achou que estava te salvando, mas cada chave cravada naquele mecanismo apenas empurra a linhagem para a verdadeira forma. Olha para você, Helena. Você não é mais a mãe deste menino. Você é a guardiã da engrenagem.

— Não! Me solta! — Helena começou a se debater contra as tiras de couro. A força que emanava de seus braços era descomunal; o metal da cama de hospital rangeu e dobrou sob sua pressão.

Com um estalo seco, o couro cedeu. Helena projetou-se para fora da cama, caindo de joelhos no piso frio de linóleo. Ela se rastejou até o pai, agarrando a barra de seu jaleco. Mas, ao erguer os olhos, percebeu que o rosto do homem começara a se desfazer, a pele derretendo como cera quente para revelar a estrutura de tijolos escurecidos e raízes que ela vira no túnel subterrâneo.

O hospital inteiro estava se desintegrando ao redor deles. As paredes de gesso caíam em pedaços, revelando a imensidão da mina ancestral. A luz fluorescente piscou pela última vez e apaguei-se, substituída pela penumbra avermelhada que saía do peito do próprio bebê.

— Ele pertence à cidade agora — a voz do pai ecoou de todas as direções enquanto sua figura se transformava em uma coluna de poeira e ossos. — E para mantê-lo vivo, você precisa alimentá-lo com o que restou de sua humanidade.

A criança nos braços de Helena — agora sozinha no centro de uma imensa sala circular de engrenagens em movimento — começou a chorar novamente. Mas o som não era de um bebê. Era a voz de Gabriel, clamando por socorro do fundo das paredes de pedra.

Helena abraçou o filho contra o peito, sentindo o calor do mecanismo pulsante atravessar sua pele. A dor da contração voltou com uma força avassaladora, rasgando suas entranhas. Ao olhar para baixo, viu que a pele de sua barriga estava coberta pelas mesmas inscrições em sangue do diário, e as letras começavam a se mover, reescrevendo a história em tempo real.

“A nova mãe exige uma oferenda. O sangue do criador deve selar o portão.”

Pusando os pés sobre a estrutura rangente, Helena deu alguns passos pelo chão de pedra da câmara central. Diante dela, suspenso por correntes enferrujadas sobre um abismo sem fim, estava um corpo acorrentado.

Helena aproximou-se, a luz avermelhada do peito do filho iluminando o rosto do prisioneiro.

O ar escapou de seus pulmões. O homem preso pelas correntes, coberto de ferimentos e com o peito aberto expondo uma cavidade vazia, não era o homem da cicatriz. Era o Gabriel verdadeiro — o homem com quem ela casara, o homem da foto em sua mesa de cabeceira, mantido vivo por fios de prata conectados à parede da mina.

E o homem que a guiava até ali, o Gabriel que a acompanhara pela tempestade e pelo cemitério, surgiu da escuridão ao lado da estrutura, segurando uma lâmina idêntica à que Helena usara para cavar a terra.

— Obrigado por trazê-lo até mim, Helena — disse o falso Gabriel, com um sorriso frio que fez o sangue de Helena congelar. — Agora podemos finalmente começar o ritual.

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