Parte 6: Helena descobre ser apenas uma de várias cópias clonadas ao enfrentar um exoesqueleto biomecânico após ser revelada a verdade sobre o paradeiro de seu verdadeiro filho
O frio da noite parecia penetrar diretamente na medula de Helena enquanto a paralisia cedia, dando lugar a uma queimadura lancinante em cada terminação nervosa. A mensagem no rastreador piscava com uma constância hipnótica, refletindo um brilho esverdeado sobre o sangue seco em suas mãos. Procedimento de substituição da cópia de Helena. A frase ecoava em sua mente como um eco distorcido, desmontando a pouca sanidade que lhe restava. Ela não era apenas uma cobaia; era uma iteração descartável em uma linha de montagem biológica.
Puxando o ar com violência para os pulmões traumatizados, Helena ergueu-se sobre os joelhos. A vegetação ao redor do pátio queimava em pequenos focos de incêndio alimentados pelos destroços do laboratório subterrâneo. O ar estava impregnado com o cheiro característico de ozônio e carne queimada. A menos de vinte metros, a cratera onde ficava o complexo continuava a afundar, tragando os últimos vestígios da pesquisa de Clara. Helena caminhou a passos trôpegos até a borda do abismo de terra e concreto, mas parou abruptamente quando o som de um rádio estático emergiu dos escombros mais rasos.
Lutando contra os espasmos musculares, ela removeu uma placa de gesso destruída e encontrou o corpo de um dos guardas da instalação. O rádio em seu colete tático emitia uma voz entrecortada por interferências: — Unidade Três, responda. O espécime secundário foi neutralizado no pátio? A equipe de contenção do complexo de alta altitude precisa da confirmação antes da chegada do Diretor.
Helena pegou o comunicador com a mão trêmula, mas congelou ao ouvir o ruído de passos pesados se aproximando pelas suas costas, sobre a cascalheira do penhasco. Ela girou nos calcanhares, sacando uma faca tática presa à bota do guarda morto. Da névoa densa que subia do mar, emergiu uma figura alta, vestindo um sobretudo militar pesado e empunhando um fuzil de precisão com mira térmica.
— Não atire, Helena — disse uma voz grave, surpreendentemente feminina, vinda de trás da máscara balística. — Se você me matar, nunca sairá desta ilha viva, e o sinal do rastreador no seu punho será cortado em exatamente quarenta segundos.
A mulher removeu a máscara, revelando um rosto marcado por queimaduras antigas no lado esquerdo — mas as feições do lado direito eram inquestionavelmente idênticas às de Helena. Era o mesmo nariz aquilino, a mesma linha de maxilar pronunciada e a mesma heterocromia sutil nos olhos. Era outra cópia. Uma versão mais velha, cicatrizada e sobrevivente.
— Quem é você? — exigiu Helena, a voz rouca pela fumaça, avançando um passo com a lâmina erguida.
— Eu sou o que resta da primeira tentativa. Chamam-me de Vanguarda — respondeu a mulher, mantendo a arma apontada para o chão, embora sua postura permanecesse rígida. — Seu pai não está apenas esperando no Atlântico. Ele está a bordo da plataforma Acharon, construindo um exército com o código genético do seu filho. E se você acha que aquele garoto que levaram no helicóptero é o seu filho verdadeiro, você caiu na primeira armadilha do protocolo.
Helena sentiu o chão oscilar sob seus pés. A imagem do menino na cápsula, com o peito subindo e descendo ritmicamente, voltou à sua mente com a força de um golpe físico. — O que você está dizendo? Eu vi o garoto! Eu senti a conexão… o soro no meu sangue respondeu à presença dele!
— O soro responde a qualquer tecido recombinante da mesma cepa — retrucou a Vanguarda, tirando do bolso interno do sobretudo um pequeno cilindro de vidro contendo um fluido bio-luminescente azul. — O garoto no helicóptero é um isca clonavável, projetado para atrair você até a plataforma e testar o nível de maturação da sua resposta imunológica. O seu verdadeiro filho nunca saiu da câmara congelada sob o antigo necrotério da cidade.
Um estrondo abafado ecoou do mar. Um projétil luminoso cortou o céu noturno vindo da direção do oceano, atingindo a encosta da península a pouca distância de onde estavam. A terra tremeu com o impacto, jogando ambas para o chão enquanto uma onda de choque de poeira e rochas as cobria. A frota de contenção do projeto havia localizado o sinal.
Helena rolou pela grama, agarrando o cilindro de vidro que a Vanguarda deixara cair durante a explosão. Ao erguer os olhos pela fumaça densa, viu a Vanguarda sendo erguida pelo colarinho por uma figura colossal revestida em uma armadura exoesqueletica preta, que emergira das sombras das árvores queimadas. A figura não tinha rosto humano; apenas uma placa de sensores ópticos vermelhos que piscavam em código analógico.
— Alvo primário identificado — ressoou uma voz sintética e desprovida de tom vinda do exoesqueleto. — Iniciando eliminação do espécime defeituoso Vanguarda e captura do espécime Helena.
Com um movimento seco e horrível, a figura quebrou o pescoço da Vanguarda e jogou seu corpo sem vida sobre as pedras, virando o feixe de sensores vermelhos diretamente para Helena.
Helena recuou desesperadamente, os dedos fechando-se sobre a faca e o cilindro de fluido azul. Ela sabia que não tinha força física para enfrentar uma máquina de guerra biomecânica naquele estado paralítico. No entanto, ao olhar para o cilindro em sua mão, notou uma inscrição gravada a laser no vidro temperado: Inibidor de Frequência Neural — Uso Exclusivo no Criador.
A figura mecânica deu um passo pesado em sua direção, erguendo um braço de onde despontavam três agulhas pneumáticas compridas. — Entregue a amostra, Helena. O Diretor aguarda seu retorno para o diagnóstico final.
Sem hesitar, Helena quebrou a ponta do cilindro contra uma pedra afiada e cravou o vidro partido diretamente no próprio pescoço, injetando o fluido azul diretamente na sua veia jugular. Uma descarga de dor indescritível correu por sua coluna vertebral; sua visão tornou-se completamente vermelha enquanto seus batimentos cardíacos aceleravam para níveis letais. A paralisia desapareceu instantaneamente, substituída por uma hiper-consciência violenta e descontrolada.
Movendo-se com uma velocidade inacreditável, Helena desviou do golpe pneumático da máquina, cravando a faca tática diretamente na junta exposta do pescoço do exoesqueleto. Chispas elétricas e fluido hidráulico jorraram sobre seu rosto. A máquina soltou um urro de frequência distorcida e cambaleou para trás, mas seus sensores continuavam travados no peito de Helena.
Antes que Helena pudesse desferir o golpe final, o painel do exoesqueleto abriu-se com um chiado de descompressão, revelando a cavidade torácica do robô. Não havia engrenagens ou circuitos no centro da estrutura — apenas um peito humano exposto, batendo dentro de um tântalo de preservação biológica, conectado por dezenas de tubos transparentes.
E no centro daquele peito, gravada na pele pálida e cicatrizada, estava a mesma marca de nascença em forma de meia-lua que Helena carregava no próprio braço.
A voz sintética do exoesqueleto falhou, sendo substituída por um sussurro humano fraco e trêmulo que saiu dos alto-falantes internos: — Helena… ajude-me… ele… ele não nos deixou morrer…