Parte 8: Um ritual sombrio revela o duplo de Lucas e liberta uma entidade ancestral enquanto a câmara sagrada desmorona sob o ataque de invasores misteriosos
O olhar do corpo no altar era de um azul elétrico e vazio, sem pupilas ou íris, mas focado diretamente em Lucas. O ar ao redor da câmara congelou instantaneamente; a respiração de Lucas transformou-se em uma nuvem densa de vapor que rasgava sua garganta a cada arfada dolorosa. As costelas quebradas queimavam como fogo líquido, mas a paralisia do choque o mantinha cravado no chão de pedra fria.
O peito do cadáver começou a inflar lentamente, não com ar, mas com a luz dourada que transbordava do buraco onde deveria estar o coração. Os tentáculos dessa luminosidade espessa projetaram-se para fora, tateando o ar como galhos em busca de terra firme, até encontrarem o peito de Lucas.
— O recipiente está pronto — anunciou Helena, dando um passo à frente. Ela não olhava para Lucas com ódio ou pena, apenas com a frieza mecânica de quem cumpre uma sentença há muito traçada. — A transferência devia ter acontecido no seu nascimento, mas Thomas fraquejou. Ele escondeu você na superfície por vinte e cinco anos.
Lucas tentou rastejar para longe, mas as farpas de luz dourada perfuraram sua pele, atravessando sua jaqueta como agulhas quentes. Um grito agudo escapou de sua boca quando a luz começou a puxar sua própria essência vital em direção ao corpo no altar. Sua visão vacilou; a energia que queimava em suas veias estava sendo sugada para preencher a cavidade oca daquele duplo idêntico.
Ele olhou desesperadamente para o homem que chamara de pai. Thomas estava parado a poucos metros, com as mãos cruzadas atrás das costas. As lágrimas que escorriam pelo rosto do velho eram negras e viscosas, mas sua postura permaneceu ereta, impassível.
— Perdoe-me, Lucas — sussurrou Thomas, a voz trêmula sobrepondo-se ao zumbido ensurdecedor da luz. — Para que o vale sobreviva, uma versão de você precisa morrer. A cidade inteira sobre a qual você caminhou é apenas a tampa de um caixão. E o que está dentro dele é você mesmo.
As palavras não faziam sentido no cérebro anuviado de Lucas, mas o impacto da dor física o impedia de raciocinar. A luz dourada agora formava uma ponte espessa entre os dois peitos. Lucas sentiu o batimento cardíaco do cadáver começar a ressoar dentro de sua própria caixa torácica — lento, pesado, ancestral. Suas próprias mãos começaram a empalidecer, perdendo a cor e a temperatura enquanto a pele do corpo no altar ganhava um tom rosado e humano.
De repente, um estrondo ecoou do topo do poço.
O corpo de Vane despencou da borda superior, despencando centenas de metros até se esborrachar no chão de pedra a poucos passos de Helena. O impacto foi seco e brutal, mas Vane não estava morto. Seu pescoço estava retorcido em um ângulo impossível, e de sua boca aberta jorrava uma névoa prateada que subia em espirais rápidas em direção ao teto.
— Eles quebraram o selo superior! — gritou a voz de Vane, embora suas mandíbulas estivessem completamente destruídas. A névoa prateada falava por ele. — A ordem de cima descobriu o ritual! Eles estão descendo!
Helena praguejou em um idioma arcaico, sacando uma lâmina curvada de ferro negro da cintura. Thomas, no entanto, não se moveu. Ele deu dois passos rápidos em direção ao altar, enfiou a mão no feixe de luz dourada que unia Lucas ao cadáver e agarrou o pulso do filho.
A dor da transferência foi interrompida abruptamente com um estalo que soou como um trovão enclausurado. A luz dourada se desfez em fagulhas que queimaram a pele de ambos.
— O que você está fazendo, Thomas?! — rugiu Helena, avançando com a lâmina erguida. — Faltavam poucos segundos! Se a mente dele não for apagada agora, a entidade vai acordar com a memória dos dois mundos!
— Ele não é apenas o recipiente, Helena — disse Thomas, seus olhos finalmente voltando à cor castanha original, transbordando de um pavor puramente humano. — Eu mudei os símbolos na fogueira há vinte anos. Eu não criei um clone para salvar o vale. Eu dividi a alma dele em duas metades.
Helena parou no meio do passo, a lâmina tremendo em sua mão enquanto a assimilação daquela verdade congelava suas feições.
Lucas, tossindo sangue e com a visão turva, sentiu a força retornar parcialmente aos seus membros. Ele olhou para o jovem no altar. O cadáver — a outra metade de sua alma — já não estava mais deitado. Ele estava sentado no pedestal de pedra, a cavidade do peito agora fechada por uma cicatriz profunda em forma de espiral.
O duplo piscou os olhos azuis e virou a cabeça devagar. Quando ele olhou para Lucas, abriu um sorriso lento, cruel e perfeitamente idêntico ao sorriso que Lucas costumava dar quando era criança.
— Olá, irmão — disse o duplo, com a voz exata de Lucas, mas ressoando com o poder das profundezas da terra.
Antes que Lucas ou Thomas pudessem reagir, o teto da caverna acima deles ruiu completamente. Toneladas de rocha e escombros despencaram sob uma tempestade de fogo azul, revelando figuras de túnicas brancas descendo por cordas de aço através da poeira. A estrutura do altar começou a ceder, o chão rachando ao meio sobre o abismo sem fim.
Helena investiu contra Thomas, mas o duplo saltou do pedestal com uma agilidade sobre-humana, interceptando a lâmina de Helena com a mão nua. O metal derreteu ao toque de seus dedos.
O chão sob os pés de Lucas ruiu totalmente. Ele começou a escorregar para o precipício que se abrira no centro da câmara, suas mãos buscando desesperadamente onde se agarrar. Thomas se esticou e segurou a jaqueta de Lucas, mas a pedra onde o pai se apoiava cedeu ao mesmo tempo.
Enquanto despencavam juntos na escuridão fumegante do poço interior, Lucas olhou para cima uma última vez. No topo da pilha de escombros, iluminado pelo fogo azul dos invasores, seu duplo permanecia de pé, observando-o cair com o relógio de bolso de Thomas na mão — o mecanismo girando para a frente em uma velocidade alucinante.
Lá no fundo do abismo, onde a luz da superfície jamais chegara, algo imenso e vivo abriu mil olhos amarelos na penumbra.