Parte 8: Helena enfrenta revelações devastadoras sobre o filho aprisionado no exoesqueleto, resgata a criança antes da purga e salta no oceano para escapar da Acharon, apenas para ser confrontada por uma figura misteriosa do passado

O choque elétrico das palavras do Diretor congelou o ar nos pulmões de Helena de forma mais violenta do que qualquer substância química. O peito frágil dentro do exoesqueleto expandia-se em respirações curtas e artificiais, sustentado pelo mesmo fluido sintético que agora escorria, viscoso e escuro, pelo pavimento destruído. A marca em forma de meia-lua no pequeno tórax não era uma ilusão da névoa. Era a cicatriz da cirurgia que ela mesma presenciara anos atrás, quando lhe disseram que o menino não resistira às complicações do nascimento.

— Você… você o transformou nisso? — a voz de Helena saiu em um sussurro rasgado, as mãos cravando-se na terra lamacenta enquanto ela tentava se erguer sobre as costelas fraturadas.

— Transformar é uma palavra muito vulgar, minha cara — respondeu o Diretor, dando um passo adiante e posicionando a ponta fria do bisturi a milímetros da artéria coronária da criança. — Nós o aperfeiçoamos. A mente de uma criança não possui os bloqueios morais de um adulto. Ela apenas cumpre ordens, desde que a interface simule a voz correta. A voz da mãe que ele nunca teve.

O exoesqueleto, mesmo paralisado pelo pulso eletromagnético, emitiu um gemido metálico agudo. No interior da carcaça, os pequenos olhos do garoto abriram-se devagar, opacos e banhados por uma película avermelhada. Ele não olhou para o Diretor. Os seus olhos fixaram-se diretamente em Helena.

— Mamãe…? — a voz infantil ressoou pelos alto-falantes externos da máquina, desprovida da modulação sintética de combate. — Está doendo… a máquina está fria.

O estômago de Helena deu um nó violento. A raiva que queimava em suas veias sobrepôs-se instantaneamente à dor das fraturas. Sem emitir um único som, ela empurrou o solo com as pernas, arremessando o próprio corpo contra os joelhos do Diretor.

O homem não esperava a reação violenta de um organismo tão debilitado. Ele perdeu o equilíbrio e caiu de costas sobre o cascalho molhado, o bisturi voando de sua mão e desaparecendo na escuridão. Helena cavalgou sobre o peito dele, desferindo um soco cruzado que quebrou os óculos de armação fina e cortou o supercílio do cientista.

— Onde está o código de desativação? — gritou ela, esmurrando-o novamente, o sangue do homem sujando suas próprias mãos trêmulas. — Fala!

O Diretor tossiu sangue, mas um sorriso grotesco e deformado surgiu em seus lábios cortados.

— Não há código de desativação, Helena — engasgou ele, apontando com o dedo trêmulo para o pulso do guarda morto a poucos metros. — O temporizador que você viu não é para a destruição do necrotério. É o tempo de purga celular do garoto. Quando o relógio chegar a zero, o fluido de preservação se transforma em ácido puro para eliminar as evidências biológicas.

O sangue de Helena congelou. Ela olhou para o cronômetro no terminal acoplado ao pulso do cadáver: 06:12… 06:11… 06:10.

Antes que ela pudesse pressionar o Diretor novamente, o som ensurdecedor das pás dos helicópteros preencheu o vale. Um feixe de luz tática de alta intensidade focalizou o grupo. Pelo alto-falante da aeronave líder, uma voz grave e robotizada ecoou sobre a tempestade:

— Unidade de Contenção Acharon em solo. Diretor Vance, sua autoridade foi revogada pelo Conselho Primário. O projeto de integração neuro-militar falhou. Proceder com a eliminação de todos os alvos biológicos no setor.

O Diretor parou de rir instantaneamente. Seus olhos se arregalaram em puro pavor ao perceber que fora descartado pela própria corporação que liderava.

— Não… esperem! Eu sou o criador da arquitetura! — gritou ele para o céu, erguendo as mãos sujas.

A resposta veio na forma de um disparo de precisão vindo do helicóptero. O projétil de grosso calibre perfurou o peito do Diretor com um impacto abafado. O corpo do homem deu um solavanco e ficou inerte sob Helena, os olhos abertos encarando as nuvens negras sem vida.

Helena rolou para o lado no mesmo segundo em que uma chuva de disparos pesados começou a varrer a encosta. Ela se arrastou de volta para a estrutura paralisada do exoesqueleto, usando o metal blindado da máquina como escudo contra os projéteis que ricocheteavam ao seu redor, soltando faíscas alaranjadas.

— Menino… meu amor, me ouve — pediu Helena, enfiando as mãos sangrando para dentro da cavidade metálica e segurando os ombros pequenos da criança. — Eu vou tirar você daí.

— Não dá… — sussurrou o garoto, a respiração cada vez mais curta enquanto o fluido no estanque começava a mudar de cor, passando do azul transparente para um amarelo turvo e efervescente. — Os cabos… eles estão presos no meu cérebro. Se você puxar… eu durmo para sempre.

O temporizador no pulso do guarda morto piscava em ritmo acelerado: 03:45… 03:44…

Helena olhou para os cabos conectores na base do crânio da criança. E foi então que notou algo que o Diretor não tivera tempo de revelar: a fiação neuro-mecânica não entrava no cérebro do garoto. Ela estava acoplada a um segundo módulo de processamento — um recipiente cilíndrico de aço escovado gravado com as iniciais H.V.

Helena olhou para os cabos conectores na base do crânio da criança. E foi então que notou algo que o Diretor não tivera tempo de revelar: a fiação neuro-mecânica não entrava no cérebro do garoto. Ela estava acoplada a um segundo módulo de processamento — um recipiente cilíndrico de aço escovado gravado com as iniciais H.V.

Helena. Vance.

Aquele não era apenas o cérebro do filho dela. A interface usava o mapa neural de Helena, clonado durante os anos em que ela esteve inconsciente nos laboratórios da plataforma. A máquina só respondia aos comandos porque acreditava ser a própria Helena protegendo a criança.

Com os dedos trêmulos, ela alcançou o painel do módulo cilíndrico e puxou a trava de emergência. A carcaça do exoesqueleto deu um estalo definitivo, e as luzes dos sensores ópticos apagara-se por completo. Os servomotores libertaram as travas mecânicas, e o compartimento de preservação projetou-se para fora, soltando a criança nos braços de Helena.

Ela envolveu o corpo frágil do filho em seu peito, sentindo o calor fraco da pele dele contra a sua. O menino respirava fundo, livre dos tubos sintéticos, embora o cronômetro no pulso do guarda ainda mostrasse escassos dois minutos para a detonação da purga regional.

Sem hesitar, Helena levantou a criança nos braços e correu em direção à borda do penhasco, fugindo do alcance dos refletores das aeronaves. O mar lá embaixo rugia contra as rochas pontiagudas, a mais de trinta metros de altura.

Atrás dela, o exoesqueleto abandonado começou a emitir um apito agudo e contínuo de sobrecarga do núcleo.

— Segure firme, meu filho — murmurou Helena, ajustando o abraço ao redor da criança e pisando na beirada da rocha.

Antes que os soldados do helicóptero pudessem ajustar a mira, Helena saltou no abismo escuro em direção ao Atlântico.

No meio da queda livre, o topo do penhasco explodiu em uma onda de choque de fogo e metal incinerado. O impacto da explosão no ar empurrou Helena para longe da costa, arremessando-a violentamente contra as águas gélidas da baía.

A escuridão e a água salgada engoliram a visão de Helena instantaneamente. O frio cortante roubou-lhe o ar, mas ela manteve os braços travados ao redor do corpo do menino, lutando contra a correnteza descendente que os puxava para as profundezas.

Quando ela finalmente emergiu na superfície, tossindo água e lutando para manter a cabeça do filho acima das ondas violentas, a luz das chamas no topo do penhasco iluminou a água ao seu redor.

A menos de cinco metros de onde eles boiavam, a superfície do oceano começou a se abrir. Uma enorme estrutura negra de titânio emergiu lentamente das profundezas, criando uma marola violenta. A escotilha superior do submersível militar abriu-se com um silvo pneumático seco.

Uma figura alta, usando um uniforme militar sem insignias e uma máscara facial que ocultava suas feições, apareceu no topo do convés do submarino. Ele estendeu uma vara de resgate em direção a Helena.

— Rápido, Helena — a voz que saiu do amplificador da máscara era terrivelmente familiar, idêntica à voz do homem que ela vira morrer anos atrás. — Se não subir agora, as bombas de profundidade da Acharon vão transformar vocês dois em névoa orgânica.

Helena travou na água gelada, o filho desacordado em seus braços. A voz pertencia ao seu falecido marido — o homem cuja morte fora o catalisador de toda a sua busca.

Mas antes que ela pudesse tocar na vara de resgate, o garoto em seus braços abriu os olhos, encarou a figura mascarada no submarino e sussurrou em pavor absoluto:

— Não… mamãe… ele não é o papai. Ele é o homem que nos vendeu.

Понравилась статья? Поделиться с друзьями:

Video

Video