Parte 8: Após cair em um túnel misterioso e descobrir o plano macabro sobre o sacrifício de sua linhagem, Helena destrói o relógio macabro para tentar salvar o filho e acorda em uma realidade aterrorizante de hospital como uma entidade de olhos negros

Parte 8: Após cair em um túnel misterioso e descobrir o plano macabro sobre o sacrifício de sua linhagem, Helena destrói o relógio macabro para tentar salvar o filho e acorda em uma realidade aterrorizante de hospital como uma entidade de olhos negros

 Parte 8: Após cair em um túnel misterioso e descobrir o plano macabro sobre o sacrifício de sua linhagem, Helena destrói o relógio macabro para tentar salvar o filho e acorda em uma realidade aterrorizante de hospital como uma entidade de olhos negros

A queda pareceu interminável, um mergulho em um abismo de lama fria e raízes retorcidas que se contorciam como serpentes ao redor de seus tornozelos. Helena gritou, mas o som foi sufocado pela terra úmida que invadiu sua boca e nariz. O diário, agora fundido à pele de seus dedos como uma extensão macabra de seu próprio corpo, queimava em uma pulsação dolorosa, sincronizada exatamente com os batimentos daquele coração exposto sobre o relógio.

Quando seu corpo finalmente atingiu o chão de pedra dura no fundo da cratera, o ar foi expelido de seus pulmões em um baque seco. A escuridão era absoluta, exceto por uma luz avermelhada e doentia que emanava do próprio diário em suas mãos. A frase escrita com seu sangue brilhava no escuro: “Para salvar o bebê, Helena precisa morrer antes que o relógio pare.”

— Não… eu não vou deixar vocês levarem meu filho — murmurou ela, limpando o suor e a lama dos olhos enquanto tentava se levantar.

A cavidade onde caíra não era uma cova simples. Era um túnel antigo, com paredes de tijolos escurecidos pelo limo e sustentado por vigas de madeira podre. O cheiro de querosene e carne queimada voltou a impregnar o ar com uma força avassaladora. Ao fundo da galeria subterranean, o som de engrenagens gigantescas ecoava, rangendo a cada segundo que passava.

Tique. Taque. Tique. Taque.

Cada batida do relógio invisível fazia a estrutura de tijolos tremer, soltando poeira sobre os ombros de Helena. Ela deu um passo à frente, tateando a parede fria, até que seu pé tropeçou em algo rígido. Abaixando a luz do diário, o sangue de Helena congelou nas veias.

Espalhados pelo chão da galeria estavam dezenas de esqueletos. Todos vestiam a mesma jaqueta de couro que ela usava naquela noite. Todos carregavam, junto às ossadas do tórax, a mesma chave prateada e o mesmo relógio de bolso paralisado.

Ela não era a primeira Helena a descer ali. Ela era apenas mais uma tentativa.

— Eu avisei que o ciclo já se repetiu centenas de vezes — a voz do homem da cicatriz ressoou às suas costas, fazendo-a dar um salto.

Ele surgiu da penumbra, cambaleando, com uma das mãos pressionando o ferimento aberto no peito. O distintivo metálico do pai de Helena permanecia fincado em sua carne, e do rasgo na pele não saía sangue vermelho, mas sim uma graxa preta e viscosa que pingava no chão de pedra.

— Quem é você? — Helena exigiu, recuando dois passos e erguendo a chave prateada como se fosse uma arma. — O que é este lugar? Por que a minha mãe… por que a minha imagem estava lá em cima?

— Eu sou o que sobrou do seu marido, Helena — respondeu ele, a voz rasgada por uma dor profunda enquanto retirava a máscara de couro e pano que cobria parte de seu rosto.

A luz avermelhada do diário revelou o rosto mutilado por cicatrizes, mas os olhos — o verde profundo e inconfundível dos olhos de Gabriel — olhavam para ela com um amor desesperado.

— Gabriel? — o nome escapou como um sopro destruído. — Mas o homem lá em cima… a cópia com a minha mãe…

— A coisa lá em cima é a carcaça que a mina devorou — disse Gabriel, dando um passo difícil em direção a ela. — Eles precisam que você morra nesta cova para que o coração do nosso filho alimente a engrenagem do relógio por mais dez anos. O seu pai não morreu para nos proteger, Helena. Ele vendeu a nossa linhagem para manter esta cidade viva sob a terra.

Antes que Helena pudesse processar o horror da revelação, um estrondo ecoou no teto do túnel. A terra e as pedras cederam quando a figura da impostora — a réplica de Helena com olhos negros — despencou do topo do cemitério, pousando de pé com uma leveza sobrenatural sobre uma pilha de ossadas.

A cópia sorriu, a boca rasgando-se até as orelhas em um ângulo impossível.

— Gabriel sempre foi um mentiroso péssimo — a impostora sibilou, sua voz ressoando com o eco de mil mulheres falando ao mesmo tempo. — Mostre a ela o relógio, Gabriel. Mostre a ela de quem é o coração que está batendo lá dentro.

Gabriel travou. Seus olhos se encheram de lágrimas enquanto ele hesitava em levar a mão ao bolso interno da jaqueta.

Helena avançou, segurando a gola do marido com força. — Gabriel, o que ela está dizendo? De quem é aquele coração?

Com as mãos trêmulas, Gabriel puxou o relógio de bolso que resgatara da cova. A tampa de prata estava aberta. Preso ao mecanismo interno por fios de carne, um pequeno coração pulsava freneticamente. Mas, ao lado do relógio, gravado na parte interna da tampa metálica, não estava o nome de seu bebê.

Estava gravado o nome de Helena, acompanhado da data exata daquela mesma noite, com o horário de sua morte marcado para dali a exatos três minutos.

— Não é o bebê que eles querem, Helena — Gabriel sussurrou, a voz sufocada pelo choro. — Para que o nosso filho nasça humano… você tem que se matar antes que o relógio marque a meia-noite. Se você viver, ele nasce como um deles.

A impostora deu uma gargalhada aguda que fez os tijolos do túnel racharem. — Escolha, Helena! A sua vida ou a alma do seu filho!

O pulso do diário na mão de Helena atingiu um ponto de fulgor insuportável. A dor na sua barriga começou com uma contração violenta e sobrenatural. O chão tremeu quando as engrenagens gigantescas no fundo da caverna começaram a acelerar, o ponteiro dos segundos do relógio de bolso avançando implacavelmente para o número doze.

Helena olhou para Gabriel, depois para a chave queimada em sua mão e para a lâmina cravada no peito do marido. O tempo estava se esgotando.

Sem hesitar, ela tomou sua decisão. Helena avançou não contra a própria garganta, mas cravou a chave prateada diretamente no centro do coração exposto dentro do relógio de bolso de Gabriel.

Um clarão de luz branca e cega explodiu do mecanismo, acompanhado por um uivo ensurdecedor que estilhaçou as pedras do túnel. O mundo ao redor deles começou a ruir na mais absoluta penumbra.

Quando a fumaça se dissipou e o silêncio mortal tomou conta do lugar, Helena abriu os olhos. Gabriel e a impostora haviam desaparecido. O túnel e o cemitério não existiam mais. Ela estava deitada no meio de um quarto hospitalar iluminado por luzes fluorescentes piscantes.

Ao lado de sua cama, os monitores cardíacos apitavam em uma linha contínua e plana. E no berço de acrílico ao lado da leito, um bebê recém-nascido chorava alto.

Helena tentou se mover, mas seu corpo não respondia. Quando virou o rosto com extrema dificuldade em direção ao espelho da parede do quarto, viu que seu reflexo não tinha olhos humanos — apenas duas esferas inteiramente pretas, enquanto a porta do quarto de hospital começava a ser lentamente aberta pelo lado de fora.

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