Parte 7: Helena descobre segredos sombrios de sua família ao confrontar uma versão macabra de si mesma e ser engolida por uma cova misteriosa no jardim

Parte 7: Helena descobre segredos sombrios de sua família ao confrontar uma versão macabra de si mesma e ser engolida por uma cova misteriosa no jardim

 Parte 7: Helena descobre segredos sombrios de sua família ao confrontar uma versão macabra de si mesma e ser engolida por uma cova misteriosa no jardim

A dor aguda do metal fervente obrigou Helena a soltar a chave, que ressoou ao bater contra o assoalho de madeira. O cheiro de carne queimada misturou-se ao aroma nauseante de formol que infestava o ar. Com um solavanco brutal, a mão que emergia do cofre puxou-a para mais perto da cavidade escura. Helena cravou os calcanhares no chão, lutando contra o terno aperto dos dedos frios e rígidos do homem que jurara estar morto há dez anos.

— Pai? — o sussurro escapou de sua garganta como um lamento, antes que a razão se sobrepusesse ao choque. — Não… você morreu naquelas minas!

— Nós nunca saímos de lá, Helena — o eco abafado vindo do interior do cofre parecia vibrar diretamente nos ossos dela. — E o que você carrega na barriga nunca foi um milagre. Foi a nossa paga.

O choque das palavras paralisou-a por um segundo vital. A revelação de que seu pai não apenas conhecia o pesadelo, mas fazia parte da engrenagem que destruíra sua família, congelou o sangue em suas veias. O homem da cicatriz aproveitou a distração: em um movimento ágil e silencioso, ele avançou sobre o cofre, puxando uma lâmina caçadora da bainha e cravando-a com violência no braço cinzento que segurava Helena.

Um urro deshumano ecoou do fundo da parede. A mão soltou a jaqueta de Helena, recolhendo-se rapidamente para a escuridão do cofre, que se fechou com um estrondo metálico, selando a abertura como se nunca tivesse existido.

Helena caiu de joelhos, arquejando, a palma da mão direita em carne viva por causa da chave aquecida. Ao seu lado, o intruso cicatrizado limpara o sangue escuro e espesso da lâmina na própria calça. Ele a encarou com olhos desprovidos de qualquer piedade.

— Não temos tempo para o seu luto adiantado — disse ele, a voz cortante enquanto estendia a mão e a puxava pelo cotovelo sem delicadeza. — Se aquela coisa do outro lado da porta entrar, nem o diário do seu marido vai salvar o que resta da sua sanidade.

A porta principal cedeu com um estalo ensurdecedor. As dobradiças superiores arrancaram-se da alvenaria em uma chuva de lascas de madeira e gesso. Por entre a fresta que se abria, a penumbra revelou a figura que cantava. Não era apenas uma sósia. Era Helena — uma réplica perfeita dela mesma, usando o mesmo vestido estampado que ela vestia no dia em que o marido desaparecera. Mas seus olhos eram duas esferas inteiramente pretas, desprovidas de íris ou esclerótica, e suas mãos carregavam o corpo inerte de um homem envolto em lençóis embebidos em graxa.

— Veja o que eu fiz por nós, Helena — a impostora sorriu, revelando dentes demasiado afiados, alinhados em duas fileiras sobrenaturais. — Eu limpei o tremor do coração dele.

O impacto da visão de seu próprio rosto monstruoso fez o estômago de Helena dar um nó. O desespero ultrapassou qualquer limite de medo racional. Ela olhou para o chão e viu a chave prateada, agora fria novamente, brilhando sob o feixe de luar que entrava pela janela quebrada. Sem pensar, abaixou-se, agarrou a chave e o diário, e correu em direção à sacada.

— Helena, não! — gritou o homem da cicatriz, alcançando o cabo de seu relógio de bolso que balançava. — O segundo andar está cercado por eles!

Era tarde demais. Helena projetou o corpo contra a porta de vidro da sacada, estilhaçando os painéis em uma chuva de cristais brilhantes. O ar gelado da noite atingiu seu rosto enquanto ela despencava para a escuridão do jardim dos fundos.

O impacto com o solo não veio com a dor da perda de ossos, mas sim com um baque abafado contra um monte de terra fresca e revolvida. Helena rolou pela lama, segurando o diário contra o peito como se fosse sua única âncora para a realidade. Quando conseguiu se sentar, tossindo e cuspindo terra, percebeu que o jardim da casa não existia mais.

Onde deveriam estar as hortênsias e o gramado bem cuidado de sua propriedade, estendia-se um cemitério clandestino de valas rasas, pontilhado por dezenas de lápides de madeira sem nome. A névoa espessa rastejava pela terra, e, a poucos metros de onde caíra, uma lanterna de querosene iluminava uma figura curvada sobre uma cova aberta.

A pessoa segurava uma pá, ritmando as batidas na terra seca com o choro baixinho de um recém-nascido.

Helena prendeu o fôlego, congelada no lugar. O choro era inconfundível. Era o choro de seu filho.

Ela se levantou devagar, os pés afundando na lama macia, a chave prateada prensada entre os dedos arranhados. A cada passo em direção à lanterna, o som do choro parecia mudar, alternando entre o gemido de um bebê e a risada abafada de uma mulher idosa.

Quando Helena finalmente alcançou a borda da vora e projetou a luz sobre a figura que cavava, seu coração parou.

A mulher que cavava a cova usava as roupas de sua mãe, morta há vinte anos. E dentro do berço improvisado no fundo da cova, envolto em mantas sujas de fuligem, não havia um bebê humanos. Deitado sobre os panos estava o relógio de bolso do pai de Helena, marcando ruidosamente o tempo que corria ao contrário, ligado por fios finos de carne e sangue a um pequeno coração exposto que batia em ritmo acelerado.

— Você demorou tanto, minha filha — a mulher se virou devagar, o rosto completamente coberto por uma máscara de cera derretida que moldava as feições exatas do marido de Helena. — O relógio já vai dar a hora do seu nascimento.

Um estalo alto ressoou do topo da colina do cemitério. O homem da cicatriz surgiu no horizonte, manco e sangrando profusamente pelo peito, com o distintivo do pai de Helena cravado na própria carne.

— Não ouça nada do que ela diz! — ele gritou, a voz falhando enquanto apontava o isqueiro aceso para o chão de terra ao redor de Helena. — Olhe para as suas mãos! Olhe para o diário!

Helena olhou para baixo. A capa do diário que mantivera preso ao peito não continha as anotações do marido. A pele do diário estava se transformando, revelando as linhas da palmilhar de sua própria mão, e as páginas em branco começaram a se preencher sozinhas, escritas com o seu próprio sangue fresco, revelando a última frase do livro: “Para salvar o bebê, Helena precisa morrer antes que o relógio pare.”

Antes que ela pudesse soltar o livro horripilante, a terra sob seus pés cedeu completamente, engolindo-a para dentro da vora funda, enquanto dezenas de mãos gélidas e famintas emergiam das paredes de lama para puxá-la direto para o fundo.

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