Parte 7: Helena descobre segredos aterradores sobre sua família e enfrenta a ameaça implacável do Diretor após o confronto com o exoesqueleto
O ar gélido nos pulmões de Helena parecia subitamente insuficiente. O sussurro vindo do interior daquela carcaça de metal e carne não era apenas humano — era uma frequência de voz que ecoava no fundo de sua memória mais remota, uma ressonância maternal que ela julgava enterrada sob anos de mentiras e simulações. A marca de nascença em forma de meia-lua, visível através do tântalo de preservação, pulsava em um ritmo idêntico ao do seu próprio coração acelerado pelo inibidor neural.
— Mãe? — a palavra escapou dos lábios de Helena como um sopro ensanguentado, o choque congelando seus músculos antes mesmo que o fluido azul começasse a perder o efeito.
O exoesqueleto deu um estalo mecânico violento. As luzes dos sensores ópticos piscaram do vermelho estático para um amarelo de emergência. A cavidade torácica exposta contraiu-se em um espasmo doloroso, e os tubos transparentes que sustentavam o órgão central começaram a se encher de um líquido escuro e viscoso.
— Não há tempo… — o sussurro da voz maternal falhava, entrecortado por chiados de alta frequência. — O inibidor que você injetou… ele acionou a purga de dados da unidade. Se a plataforma Acharon detectar que o bio-núcleo foi comprometido, eles vão detonar os reatores subterrâneos do necrotério. O seu verdadeiro filho… o coração dele é a chave de ignição da rede!
Antes que Helena pudesse avançar para rasgar os cabos e libertar o que restava de sua mãe, o rastreador tático no punho do guarda morto na cascalheira emitiu um apito agudo e contínuo. O display digital mudou drasticamente de verde para um vermelho pulsante. O texto na tela ejetou uma nova linha de comando: Sobrescrita de Emergência Concluída. Sequência de Abate Ativada.
A menos de cem metros dali, no topo do penhasco que dominava a baía, os refletores de três helicópteros de combate sem insígnias cortaram a névoa, iluminando o pátio destruído com uma luz branca e cegante. Os motores das aeronaves rugiam em uma frequência que fazia os dentes de Helena vibrarem dentro da boca.
O exoesqueleto deu um salto para trás com uma agilidade surpreendente para a sua massa metálica, fechando as placas torácicas com um baque seco e blindado que ocultou novamente o peito exposto. Os sensores vermelhos reacenderam-se com força total.
— Ordem primária atualizada pelo Diretor — a voz sintética e desprovida de emoção retornou, sobrepondo-se ao sussurro humano de segundos atrás. — Espécime Helena marcado para execução imediata. Amnistia cancelada.
A máquina ergueu o braço direito, e o som de um carregador pesado travando na câmara da arma embutida ecoou pelo penhasco. Helena não hesitou. Alimentada pelo ápice de adrenalina e pelo efeito químico da substância em suas veias, ela se projetou para o lado no exato milissegundo em que uma rajada de projéteis perfurantes rasgou o solo onde ela estava, lançando estilhaços de rocha e lama em todas as direções.
Ela rolou pela beirada da cratera, despencando alguns metros encosta abaixo até colidir violentamente contra a carcaça retorcida de um veículo militar destruído na explosão anterior. O impacto tirou-lhe todo o ar, mas ela manteve os olhos fixos na linha do horizonte. Longe, no meio da escuridão do Atlântico, as luzes da plataforma Acharon brilhavam como uma cidade fantasma flutuando sobre as ondas violentas.
Gritando de dor e raiva, Helena rastejou para o interior do veículo destruído, procurando qualquer coisa que pudesse servir de arma ou fuga. Entre os painéis queimados do painel de controle, o brilho de um terminal de bordo de alta frequência ainda piscava. O sistema de navegação exibia um mapa topográfico da ilha com um ponto luminoso pulsando exatamente abaixo do antigo necrotério da cidade — a três quilômetros dali.
E ao lado do ponto luminoso, um contador regressivo marcava: 08:42… 08:41… 08:40.
O teto do veículo militar foi subitamente arrancado com a facilidade de quem rasga papel. O braço do exoesqueleto penetrou no habitáculo, os dedos de aço fechando-se ao redor do tornozelo direito de Helena e puxando-a para fora com força brutal. Helena foi arremessada contra a terra batida, o impacto estalando duas de suas costelas.
A máquina caminhou calmamente até ela, erguendo a lâmina pneumática acima do peito de Helena.
— A iteração de Helena termina aqui — declarou a voz mecânica.
No entanto, no momento em que a lâmina começou sua trajetória descendente, uma explosão silenciosa de luz roxa vinda da floresta atingiu o exoesqueleto em cheio na parte traseira. A armadura metálica sofreu uma descarga magnética colossal; arcos elétricos violetas percorreram toda a estrutura da máquina, paralisando seus servomotores no ar.
O exoesqueleto travou, caindo de joelhos a centímetros de Helena.
Da sombra das árvores, caminhando com passos calmos e deliberados, surgiu uma figura vestindo o jaleco branco do laboratório — completamente limpo, sem uma única mancha de poeira ou sangue. Ele carregava um dispositivo emissor de pulso eletromagnético portátil em uma das mãos e um bisturi cirúrgico na outra.
O homem sorriu, revelando dentes perfeitamente alinhados, e ajustou os óculos de armação fina.
— Excelente desempenho, Helena — disse o Diretor, sua voz suave contrastando absurdamente com o cenário de carne e metal moído. — O soro de terceira geração respondeu melhor do que minhas previsões mais otimistas. Mas você realmente achou que sua mãe era a única mente preservada dentro dessas armaduras?
O Diretor caminhou até a carcaça paralisada do exoesqueleto e, com um movimento rápido do bisturi, cortou a fiação do painel de emergência na nuca da máquina. O painel torácico abriu-se novamente com um chiado.
Helena prendeu a respiração, o horror travando seus músculos.
O peito exposto dentro do tântalo de preservação não pertencia a uma mulher adulta. Era o peito pequeno, frágil e cicatrizado de uma criança de não mais de sete anos de idade — e a marca de nascença em forma de meia-lua brilhava fraca na pele pálida do garoto.
— Diga olá ao seu filho, Helena — murmurou o Diretor, apontando o bisturi para o coração exposto da criança. — Ou ao que sobrou dele quando decidimos usar o corpo dele como CPU da nossa unidade de ataque.