Parte 7: Falso Eduardo é desmascarado no cativeiro enquanto Gabriel surge armado e reivindica a herança dos Cavalcanti
O som do mar batendo contra a estrutura de metal do porto parecia distante, abafado pelo zumbido ensurdecedor que ecoava na mente de Helena. Ela apertou a recém-nascida contra o peito, sentindo o calor frágil da menina enquanto o monstro à sua frente ria com a própria crueldade. O impostor exibia uma cicatriz quase imperceptível na mandíbula — um detalhe que o verdadeiro pai jamais tivera, mas que a máscara de polímero biológico havia ocultado perfeitamente até aquele instante.
— Surpresa, minha querida — sibilou o falso Eduardo, a voz distorcida perdendo o tom paternal e assumindo o timbre metálico de um sintetizador. Ele passou a lâmina fria do machado pelo ombro do prisioneiro acorrentado, que soltou um gemido abafado através do mordaça de couro. — Sabe, os implantes faciais avançaram muito desde a última vez que vocês se viram. Pena que o original estava guardado em uma câmara de estase muito bem protegida… até que eu decidi que o meu lugar seria no topo da fundação.
Roberto tentou erguer a pistola, mas o sangue que escorria profusamente de seu ombro esquerdo tirou-lhe a estabilidade. Com um chute certeiro, um dos capangas que flanqueavam o impostor desferiu um golpe contra o pulso do advogado, fazendo a arma voar para os fundos do container e tilintar contra as caixas de ferramentas.
— Não se mexa, velho — rosnou o capanga, apontando uma submetralhadora diretamente para a testa de Roberto. — Um movimento e eu transformo os dois em peneira.
Helena sentiu o sangue ferver nas veias. A tontura causada pela descarga elétrica do modulador biométrico foi substituída por uma onda feroz de adrenalina. Ela olhou para o berço de acrílico ainda aberto e, discretamente, tateou o fundo da incubadora onde o cabo de energia principal continuava solto e faiscando com corrente de alta tensão.
O falso Eduardo deu mais dois passos para dentro, erguendo o machado com ambas as mãos, pronto para desferir o golpe que encerraria a linhagem dos Cavalcanti de uma vez por todas.
— Diga adeus à herança, Helena…
Antes que a lâmina pudesse descer, a sirene estridente de uma lancha da polícia maritíma irrompeu fora do armazém, seguida pelo som de megofones ecoando pelo cais: A polícia federal! Larguem as armas! O perímetro está cercado!
O impostor hesitou por uma fração de segundo, olhando para a abertura da porta onde os feixes de lanternas começavam a varrer a neblina. Foi o tempo exato de que Helena precisava. Com um grito de fúria, ela arrancou o cabo elétrico faiscante do painel da incubadora e o lançou com toda a força contra o piso inundado de água da chuva que cobria o metal do container.
Uma explosão de faíscas azuis iluminou o espaço em um clarão blinding. A corrente elétrica correu pela água, atingindo em cheio os dois capangas que seguravam o refém, fazendo-os desabar no chão com espasmos violentos.
O falso Eduardo tropeçou para trás, urrando de dor ao receber a descarga nos sapatos isolados de forma precária, mas conseguiu manter o equilíbrio, virando-se furioso para Helena com os olhos injetados de sangue.
— Sua maldita! — ele rugiu, abandonando o machado e sacando uma pistola compacta da cintura, apontando diretamente para a cabeça do verdadeiro Eduardo que jazia no chão aos seus pés. — Se eu não posso ter a chave, ninguém mais terá!
O dedo do impostor começou a exercer pressão sobre o gatilho da arma, e o som do cão armando ecoou como uma sentença de morte no cubículo apertado.
— Não! — gritou Helena, fechando os olhos enquanto protegia a bebê com o próprio corpo.
Um estampido ensurdecedor sacudiu o container, mas o impacto não veio na direção dela. O falso Eduardo congelou com os olhos arregalados, a arma escapando de sua mão enquanto uma mancha escura de sangue brotava rapidamente no centro de sua camisa. Atrás dele, na entrada rompida do container, a silhueta de Gabriel aparecia na penumbra, segurando uma pistola fumegante com as duas mãos firmes e um sorriso gélido nos lábios.
— Você achou mesmo que eu ia deixar o prêmio escapar tão fácil, Helena? — disse Gabriel, dando um passo à frente sobre os corpos caídos, enquanto o verdadeiro pai dela tossia sangue no chão. — Agora me dê a criança… a verdadeira partida está apenas começando.