Parte 6: Helena descobre que sua gravidez era uma farsa biológica para proteger a filha recém-nascida cujo DNA guarda a chave de uma fortuna bilionária
A mente de Helena entrou em colapso. Ela deu um passo atrás, os joelhos fraquejando até baterem contra a quina de uma mesa de aço cirúrgico. A mão que repousava sobre a própria barriga tremia incontrolavelmente. Sob o tecido espesso do casaco, o volume contorceu-se novamente, mas desta vez não havia o calor reconfortante de um movimento fetal — apenas a rigidez estranha e mecânica de algo que ela não conseguia mais reconhecer como humano.
Com os dedos trêmulos, ela desabotoou o casaco e ergueu a blusa molhada de chuva. O estômago de Helena não carregava a curva suave de uma gestação de sete meses. Amarrado ao seu abdômen por uma rede de tiras elásticas e sensores eletromagnéticos, havia um dispositivo biométrico cilíndrico, pulsando em um tom azulado e ritmado, perfeitamente sincronizado com os batimentos cardíacos que ela ouvira nos exames médicos dos últimos meses.
O ultrassom. As consultas. O som do coração que ela chorara ao escutar na clínica… tudo fora uma ilusão holográfica implantada sob sua pele.
O apito contínuo da incubadora no centro do container quebrou o transe horrorizado de Helena. Ela se aproximou devagar, com as mãos cobrindo a boca para sufocar um grito. O bebê dentro do acrílico respirava com a ajuda de um pequeno tubo transparente. Tinha traços delicados, a pele levemente rosada e uma marca de nascença em forma de meia-lua no pulso esquerdo — a exata mesma marca que Helena carregava no próprio braço.
Um ruído metálico ecoou na porta do container. O pesado cerrojo de ferro girou pelo lado de fora.
Helena olhou ao redor em pânico, agarrou um bisturi pesado que repousava sobre a mesa de inox e se posicionou atrás da estrutura da incubadora, pronta para golpear.
A porta rangeu e abriu-se devagar. A figura de Roberto entrou, trazendo consigo uma rajada de vento frio e o cheiro forte de pólvora. Ele trajava o sobretudo preto manchado de sangue no ombro esquerdo e segurava o rifle de precisão em uma das mãos, enquanto com a outra fechava a porta pesada, trancando a trava interna com um baque seco.
— Abaixe isso, Helena — disse Roberto, a voz rouca e desgastada pelo esforço. Ele apoiou o rifle contra a parede e pressionou um lenço sobre o ferimento na omoplata. — Nós não temos mais de três minutos antes que os homens da cooperação cortem a energia deste setor.
— Quem é essa criança? — a voz de Helena rasgou o ar, afinada pelo pavor, a ponta do bisturi apontada diretamente para o peito do advogado. — O que vocês fizeram comigo?! Que desgraça de aparelho é esse na minha barriga?!
Roberto olhou para o dispositivo preso ao corpo dela e suspirou, um olhar de profunda piedade cruzando seus olhos cansados.
— Esse aparelho é um modulador de ressonância neural, Helena. Ele manteve o seu sistema endócrino simulando a gestação para que o seu corpo produzisse os hormônios necessários para a maturação celular do feto… que crescia aqui fora, nesta incubadora.
— Por quê?! — gritou ela, as lágrimas finalmente transbordando e queimando suas bochechas. — Por que mentir para mim? Por que me fazer acreditar que eu estava grávida?!
— Porque se você soubesse que a sua filha já tinha nascido há dois meses, você jamais teria concordado em servir de isca para atrair o seu pai e o Gabriel — respondeu Roberto, dando um passo lento na direção dela. — A sua mãe, Sônia, não negociou a liberdade de ninguém, Helena. A sua mãe foi morta dentro da cela há seis horas. O Gabriel mentiu para desestabilizar você.
Helena sentiu o ar sumir completamente de seus pulmões. A sensação era de estar despencando em um poço sem fundo de mentiras e assassinatos.
— A minha… minha mãe tá morta?
— Eduardo e Gabriel a eliminaram assim que descobriram que ela havia escondido a chave da conta congelada na Suíça no DNA da sua filha — revelou Roberto, apontando para o recém-nascido na incubadora. — O testamento do velho Cavalcanti nunca esteve em papel algum. A sequência genômica necessária para desbloquear o patrimônio de três bilhões de dólares foi mapeada e inserida no código genético desta bebê. Você não era apenas a fachada, Helena… você era o incubador biológico da senha.
Antes que Helena pudesse processar a dimensão monstruosa daquela revelação, um solavanco violento fez o container inteiro estremecer. O metal rangeu com o impacto de algo pesado colidindo contra a parede externa.
A luz fluorescente do teto piscou e se apagou, deixando o ambiente imerso na penumbra avermelhada das luzes de emergência do painel da incubadora.
— Eles estão usando um guindaste — disse Roberto, sacando uma pistola da cintura e checando o pente de munição. — Querem içar o container para o navio de carga antes que a Polícia Federal consiga invadir o píer.
Do lado de fora, a voz amplificada e distorcida de Eduardo Martins ecoou através do metal das paredes:
— Eu sei que você está aí dentro com a criança, Roberto! Você cometeu um erro ao erguer o bloqueio de segurança! O sistema de oxigênio desse container é integrado à rede do porto. Se eu apertar este botão no meu controle, a mistura de ar lá dentro será substituída por nitrogênio puro em menos de trinta segundos!
Helena olhou desesperada para a incubadora. O monitor cardíaco do bebê deu um alarme sonoro agudo, e os dígitos do nível de oxigênio interno começaram a despencar rapidamente: 95%… 88%… 72%…
A bebê dentro do acrílico abriu os olhos e começou a chorar, um som abafado e frágil que cortou o coração de Helena como uma lâmina.
— Roberto, o oxigênio tá caindo! — gritou Helena, largando o bisturi e correndo para a incubadora, tentando em vão puxar a trava de acrílico que permanecia selada eletronicamente.
— A trava só abre com a biometria do modulador que está preso na sua barriga! — disse Roberto, correndo até o painel central. — Você precisa desconectar o cabo de sinal do seu corpo e raspar o chip contra o leitor da incubadora! Mas se você fizer isso sem calibrar a frequência, a descarga elétrica vai parar o seu coração!
O ar dentro do container começou a ficar pesado, rarefeito. Helena sentiu uma tontura avassaladora tomar conta de sua cabeça enquanto os números no monitor da bebê caíam para 40%. O choro da criança estava ficando cada vez mais fraco.
— Não dá tempo de calibrar! — gritou Helena, agarrando a fiação do dispositivo preso ao seu abdômen.
Com um urro de pura adrenalina e instinto materno, Helena arrancou os cabos da própria pele, sentindo uma dor lancinante que queimou seus nervos como fogo vivo. Ela prensou o módulo cilíndrico sangrento contra o leitor biométrico do acrílico.
Uma faísca azul disparou do painel, atingindo o peito de Helena e arremessando-a violentamente contra o chão de metal. O alarme da incubadora estridulou, e a cúpula de vidro finalmente se abriu com um silvo de ar.
Roberto se arrastou até Helena, que jazia no chão com a visão turva e o pulso fraco, e ajudou-a a se sentar enquanto ela pegava a bebê nos braços, cobrindo-a com o próprio casaco.
Nesse exato segundo, a porta do container foi arrancada para fora com um estalo de aço se rompendo.
A luz do luar invadiu o espaço, revelando a figura de Eduardo Martins em pé na entrada, segurando um machado industrial e com um sorriso insano no rosto.
— Excelente trabalho, Helena — disse Eduardo, dando um passo para dentro do container e erguendo o machado. — Agora passe a minha chave biológica para cá… ou assista ao seu verdadeiro pai morrer de novo.
Eduardo deu um passo para o lado, e da escuridão atrás dele surgiram dois homens arrastando um sujeito acorrentado, espancado e coberto de sangue.
When a lanterna iluminou o rosto do refém, Helena sentiu seu mundo ruir pela última vez naquele mar de pesadelos: o homem caído aos pés de Eduardo era o verdadeiro Eduardo Martins — o pai que ela chorara por três anos. O homem que segurava o machado à sua frente era um estranho usando o rosto do seu pai.