O ar congelou no peito de Lucas. Ele olhou para a mão de Elena apertando sua manga e depois para a barriga dela, sentindo uma onda devastadora de pavor se espalhar por suas veias. O som das sirenes se aproximava do pátio principal, mas o ruído agudo do gás vazando sob as tábuas de madeira abafava qualquer outro barulho.
«Ela mentiu para você, Lucas!», gritou Beatriz, aproveitando o momento de choque do filho para recuar em direção às sombras do corredor lateral da mansão. «Ela usou essa gravidez para destruir nossa família desde o primeiro dia!»
Lucas ignorou a mãe. Ele se curvou sobre Elena, ignorando a dor no próprio corpo, e envolveu-a nos braços para erguê-la do chão encharcado. O gesso emaranhado e molhado pesava como uma rocha, mas a adrenalina transformou o esforço em algo puramente mecânico. Quando o joelho dele se firmou sobre a madeira escorregadia, um estrondo ecoou da parte inferior da piscina.
O painel de ardósia que cobria o reservatório submerso cedeu completamente com a pressão das bombas de alta pressão. Uma onda de água escura e turva jorrou para fora da abertura, trazendo consigo destroços antigos do fundo da estrutura. Junto com a água, algo pesado bateu contra a borda do deque com um baque seco e metálico: uma caixa de aço corroída, trancada com um cadeado industrial coberto de limo.
Elena piscou com dificuldade, a respiração fraca e superficial contra o pescoço de Lucas. Seus olhos se fixaram na caixa que acabara de emergir. «A chave… Lucas… a chave abre a caixa… não o reservatório…», murmurou ela, as palavras mal saindo de seus lábios arroxeados.
Antes que Lucas pudesse alcançar o objeto, dois policiais armados despontaram pela curva do jardim, com lanternas táticas iluminando a névoa de gás que subia do deque. «Parados! Polícia! Coloquem as mãos onde eu possa ver!»
«Socorro! Ela está passando mal!», gritou Lucas, sem soltar Elena, enquanto o cheiro acre de gás ficava cada vez mais denso.
Um dos policiais avançou dois passos, mas parou abruptamente quando o feixe de sua lanterna cruzou o corredor da mansão. Beatriz estava parada junto ao quadro de força externo, segurando um isqueiro de prata aberto. O reflexo da chama azulada dançava em seus olhos desprovidos de qualquer hesitação.
«Se alguém der mais um passo, esta casa inteira vai para o ar com todos os segredos do meu marido dentro dela», declarou Beatriz, a voz fria e cortante como vidro quebrado.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo chiado contínuo do vazamento e pelo bipe compassado de um dispositivo eletrônico preso à caixa corroída que saíra da piscina. Lucas baixou o olhar para o metal e sentiu o sangue fugir de seu rosto: o indicador digital na lateral da caixa contava regressivamente a partir de trinta segundos.
«Mãe, para com isso!», implorou Lucas, dando um passo cauteloso para trás enquanto sustentava Elena. «O que tem dentro dessa caixa?»
Beatriz sorriu de forma sombria, mantendo a chama do isqueiro a milímetros do duto de gás exposto. «O teste de DNA que seu pai fez uma semana antes de desaparecer, Lucas. O teste que prova que você nunca foi um Vasconcellos.»
O mundo de Lucas girou. A revelação atingiu-o com a força de um golpe físico, mas não havia tempo para absorver o impacto. O contador digital na caixa chegou aos dez segundos, emitindo bipes cada vez mais frequentes e agudos.
«Lucas… o bebê…», sussurrou Elena de repente, o corpo inteiro entrando em uma convulsão rígida. A pele dela perdeu o resto de cor que tinha, e um fio de sangue escuro começou a escorrer pelo canto de sua boca.
O policial mais próximo tentou se projetar para a frente para desarmar Beatriz, mas a matriarca simplesmente soltou o isqueiro aceso sobre o fluxo de gás.
Uma bola de fogo alaranjada explodiu no corredor, arremessando a porta de entrada para fora dos trilhos e quebrando todas as janelas do andar térreo em um estilhaçar ensurdecedor. A onda de choque derrubou os policiais e impulsionou Lucas para trás. Ele girou o corpo no ar para proteger Elena, caindo violentamente sobre o deque de madeira, que cedeu com o impacto.
Ambos despencaram na escuridão do nível inferior da estrutura, enquanto o teto de vidro da varanda desabava em uma chuva de afiados cacos cintilantes.
No fundo da estrutura arruinada, imersos em poças de água e escombros fumegantes, Lucas conseguiu se arrastar até Elena. O silêncio voltou a imperar, quebrado apenas pelas chamas que consumiam o andar superior e pelo estalo de chifres de metal retorcido. Ele pressionou os dedos contra o pescoço dela procurando um pulso, mas a pele de Elena estava gélida e inerte.
A poucos centímetros da mão estendida de Elena, a caixa metálica corroída permanecia intacta após a explosão, com a trava aberta pela vibração do impacto. A tampa de aço cedeu levemente para o lado.
Lucas esticou a mão trêmula e puxou a tampa. Lá dentro, envolto em plástico industrial perfeitamente vedado, não havia apenas papéis amarelecidos pelo tempo. Haviam duas pulseiras maternidade de hospital, datadas do mesmo dia do seu nascimento, e um gravador cassete antigo.
Ao lado dos objetos, o telefone celular de Elena — que caíra de seu bolso durante a queda — acendeu na penumbra com a tela trincada. Uma nova mensagem de texto não lida piscou no visor, enviada por um número desconhecido segundos antes da explosão:
Ao lado dos objetos, o telefone celular de Elena — que caíra de seu bolso durante a queda — acendeu na penumbra com a tela trincada. Uma nova mensagem de texto não lida piscou no visor, enviada por um número desconhecido segundos antes da explosão:
Se você sobreviver à água, não confie no Lucas. Ele sabe o que fez com o seu pai verdadeiro.