O vidro espelhado estalou sob a sola do sapato de Clara como gelo fino sobre um lago profundo. Ela cravou as unhas na própria pele do braço, buscando a dor física para se ancorar na realidade, mas o toque parecia atravessar um corpo que já não lhe pertencia. À sua frente, no labirinto infinito de reflexos, dezenas de cópias de si mesma pararam de correr ao mesmo tempo. Todas giraram a cabeça num sincronismo mecânico e apontaram o dedo indicador para a escuridão do teto. O som de passos metálicos começou a ecoar de cima, como se pesadas botas de combate estivessem marchando diretamente sobre as placas de vidro do teto da galeria. Clara recuou até bater as costas em uma superfície sólida que cheirava a mofo e ferro oxidado — o cheiro exato do porão da antiga casa de seu pai, um lugar que havia sido demolido há mais de uma década.
Um clarão avermelhado rasgou o topo do túnel de espelhos. O vidro estilhaçou-se em uma chuva de poeira prateada que não caía para o chão, mas flutuava no ar como partículas de poeira estelar. Pelas aberturas do teto destruído, braços vestidos com o mesmo tecido cinzento dos arquivos secretos do governo começaram a descer, suspensos por cabos de aço invisíveis. No centro daquele caos, a figura de Helena elevou-se do chão, flutuando a palmos da superfície enquanto seus cabelos negros ondulam sem vento. A multidão lá embaixo não corria; estendiam os braços para cima como adoradores em um transe coletivo, com os olhos completamente brancos, desprovidos de pupilas.
— Você achou que podia esconder a chave na tinta, Clara? — A voz de Helena não vinha de sua boca, mas reboava diretamente dentro do crânio de Clara, fazendo seus ouvidos zumbirem com uma frequência insuportável. — O frasco de âmbar não continha remédio. Era o selo. E você acabou de quebrar o último lacre.
Clara tentou gritar, mas seus lábios congelaram. O sangue da palma de sua mão, antes vermelho e quente, agora pingava no chão de mármore transformado em finas agulhas de gelo negro que penetravam no solo, abrindo fendas profundas que revelavam engrenagens gigantescas girando nas entranhas da terra. Do abismo recém-aberto, uma silhueta alta, vestida com um sobretudo de alfaiataria impecável e um chapéu que cobria metade do rosto, ergueu-se lentamente, apoiando-se em uma bengala de prata com o castão entalhado no formato de uma serpente bicéfala. O homem ergueu o rosto, revelando olhos dourados e uma cicatriz idêntica à que cortava a bochecha do próprio pai de Clara na fotografia guardada no fundo da gaveta trancada.
— Seja bem-vinda de volta à diretoria, minha filha — disse o homem, abrindo um sorriso cúmplice enquanto o teto da galeria despencava de vez, soterrando o mundo em uma calmaria absoluta de silêncio e cinzas.