O calor sufocante comprimia o peito de Mariana enquanto o fogo avançava como uma muralha viva sobre os escombros que separavam o casal do advogado. Tosssindo violentamente, ela apertou o pequeno Tiago contra o casaco, sentindo o coração do bebê bater em um ritmo frenético que espelhava o seu próprio pânico. Através da cortina de fumaça densa e da chuva de brasas que despencava do teto carbonizado, um som metálico e arrastado ecoou. Silveira ainda estava vivo; as mãos cobertas de sangue tateavam as vigas caídas, empurrando o peso do gesso com uma força desumana movida pelo desespero de recuperar a maleta de documentos.
— Mateo! Ele vai escapar! — gritou Mariana, o ar rarefeito rasgando sua garganta.
Mateo lutou contra a própria exaustão, ignorando o sangue que escorria pelas costas e manchava o mármore empoeirado. Com um rugido abafado pela dor, ele agarrou um pedaço de ferro retorcido das vigas caídas e marchou em direção à silhueta do advogado, que começava a emergir da poeira. No entanto, antes que o golpe pudesse ser desferido, o chão sob os pés de Silveira cedeu com um estalo seco, revelando o poço escuro e fumegante do elevador de serviço, cujas portas haviam sido retorcidas pelo calor. O advogado desapareceu na escuridão num piscar de olhos, tragado pelas profundezas do prédio em chamas, deixando para trás apenas a maleta de metal aberta na borda do abismo.
— Temos que sair daqui agora! — ordenou Mateo, puxando Mariana pelo braço com o resto de força que lhe restava, enquanto o fogo lambia as paredes laterais da sala de estar.
Sem olhar para trás, o casal correu em direção à janela panorâmica da varanda, o único ponto onde o vidro blindado ainda resistia parcialmente à pressão térmica. Com um chute desesperado impulsionado pela adrenalina, Mateo estilhaçou o que restava da vidraça, fazendo com que cacos afiados chovessem sobre a noite fria da cidade dezenas de andares abaixo. O vento gélido invadiu o ambiente, alimentando as chamas instantaneamente com um rugido ensurdecedor que transformou a sala em uma fornalha incontrolável.
Mariana protegeu o rosto do filho contra o vento cortante e inclinou-se para a borda estreita da sacada, apenas para congelar ao ver a cena que se desenrolava na rua logo abaixo. Várias viaturas policiais e uma ambulância piscavam suas luzes vermelhas e azuis, cercando a entrada do edifício. Mas o que paralisou seu sangue não foi a presença das autoridades, e sim a figura isolada que caminhava calmamente em direção a um carro preto com vidros escuros, parada na calçada oposta: Helena Alencastro, ilesa, vestindo seu casaco de vison impecável, virou-se lentamente para olhar diretamente para a janela onde eles estavam, erguendo o telefone celular aos céus como se estivesse encerrando uma ligação há muito tempo agendada.
Parte 4: Incêndio mortal revela traição familiar e a fuga enigmática de Helena Alencastro sob o olhar incrédulo do casal preso nas chamas