Parte 4: Helena quebra a ilusão do seu mundo ao tentar salvar o irmão e é confrontada com uma chocante revelação sobre a sua própria existência na mente de Gabriel

Parte 4: Helena quebra a ilusão do seu mundo ao tentar salvar o irmão e é confrontada com uma chocante revelação sobre a sua própria existência na mente de Gabriel

 Parte 4: Helena quebra a ilusão do seu mundo ao tentar salvar o irmão e é confrontada com uma chocante revelação sobre a sua própria existência na mente de Gabriel

O olho dourado no peito de Gabriel piscou devagar, expelindo uma lágrima espessa que escorreu como ouro derretido pela sua camisa rasgada. Helena deu dois passos para trás, sufocando um grito contra a própria mão, enquanto o cão soltava um rosnado grave, as orelhas coladas à cabeça. O silêncio do parque era denso, quase palpável, quebrado apenas pela respiração desordenada da jovem. Gabriel — ou o que restava dele — deu um passo cego na direção dela, erguendo as mãos de forma súplica, mas a ausência de sua boca tornava qualquer tentativa de comunicação um desespero silencioso e aterrador.

Antes que ela pudesse reagir, o olho no peito do homem se dilatou vertiginosamente. De dentro da grande pupila dourada, uma voz profunda e ressonante ecoou não pelo ar, mas diretamente na mente de Helena: “Você destruiu a âncora, garota ignorante.”

A terra sob os pés de Helena tremeu novamente, mas não em uma fenda, e sim em ondulações, como a superfície de um lago atingido por uma pedra. A grama verde ao seu redor começou a secar instantaneamente, transformando-se em cinzas cinzentas que evaporavam ao toque do vento. Helena olhou para as próprias mãos; as linhas luminosas nos seus pulsos haviam sumido, mas a pele onde o cristal negro tocara agora exibia uma cicatriz em formato de espiral que pulsava num tom violeta soturno.

— O que você fez com ele? — Helena gritou para o nada, a voz trêmula contra a imensidão do parque que morria. — Onde está o meu irmão?!

A criatura que habitava Gabriel não respondeu com palavras. Em vez disso, a pele lisa do rosto do guarda-costas começou a esticar-se e a rachar, como porcelana fina sob pressão. Através das fendas finas na carne de seu rosto, focos de uma luz prateada — a mesma luz do salão subterrâneo — começaram a vazar. Gabriel caiu de joelhos novamente, contorcendo-se enquanto o olho no seu peito girava freneticamente, fixando-se no céu.

Helena seguiu o olhar daquele olho grotesco e congelou. O céu azul cristalino que ela acabara de reconquistar estava se rasgando como papel velho. Por trás das nuvens, não havia o espaço sideral ou o sol, mas uma estrutura colossal de engrenagens de ferro e espelhos gigantescos, girando em um ritmo hipnótico e ensurdecedor que só agora ela começava a ouvir.

O mundo que ela estava vendo não era o mundo real. Era uma ilusão cuidadosamente construída.

Uma mão fria e pequena envolveu seu pulso esquerdo, exatamente sobre a nova cicatriz violeta. Helena deu um pulo, virando-se para encarar o garoto de casaco verde, que reaparecera sem emitir som algum. No entanto, o menino não parecia mais calmo; seus olhos espelhados estavam rachados, e um líquido negro pingava de seu queixo.

— Você errou o alvo, Helena — sussurrou o garoto, a voz falhando em estática. — A lâmina não era para cortar a magia. Era para transferir a custódia. Agora a prisão de Lucas não tem chaveiro, e a mente de Gabriel virou o novo portal.

Um estampido ecoou do peito de Gabriel. O olho humano se projetou para fora de sua carne, preso apenas por veias espessas e luminosas, e começou a flutuar no ar entre eles. A pupila dourada se expandiu até atingir o tamanho de uma roda, refletindo não a imagem de Helena, mas a imagem de uma mulher idosa, cega, sentada em uma cadeira de balanço em um quarto escuro, tecendo um fio de luz vermelha.

— A sua mãe… — Helena balbuciou, reconhecendo o colar de âmbar no pescoço da mulher do reflexo, o mesmo colar que sua mãe usava na última foto antes de desaparecer há dez anos. — Ela está viva?

— Aquela não é sua mãe — o garoto disse, puxando Helena com uma força irreal para longe do olho flutuante. — É a Arquiteta da sua escuridão. E ela acabou de perceber que você está acordada.

O olho flutuante soltou um raio de luz dourada que cortou o ar, atingindo o chão a centímetros dos pés de Helena. A cinza da grama onde o raio tocou transformou-se instantaneamente em estilhaços de vidro afiado. O cão latiu furiosamente e saltou na direção do olho, mas antes que alcançasse a esfera luminosa, uma garra invisível no ar agarrou o animal no meio do salto, paralisando-o no espaço.

— Não! — gritou Helena, tentando dar um passo à frente, mas o menino segurou-a com firmeza.

— Se você tocar nele agora, vira vidro também — alertou o garoto, a voz urgente. — A única forma de salvar o cão e fechar a mente de Gabriel é entrar no reflexo.

— Entrar no olho?! — Helena perguntou, o horror crescendo em seu peito enquanto o olho girava e se aproximava rapidamente, aumentando de tamanho até ocupar todo o seu campo de visão.

— Não no olho — disse o garoto, com um sorriso sombrio surgindo em seus lábios enquanto seu próprio corpo começava a se desintegrar em névoa negra. — Na memória dele.

O olho gigante avançou como uma onda fulminante, engolindo Helena, o garoto e o espaço ao redor em uma claridade insuportável. Por um segundo, o som de vento cortante e o cheiro de queimado preencheram seus sentidos.

Quando seus pés tocaram o chão novamente, a luz forte desapareceu. Helena piscou, tentando ajustar a visão à penumbra. Ela não estava mais no parque. Estava no corredor de um hospital antigo e silencioso, iluminado apenas por lâmpadas fluorescentes que piscavam ritmicamente. O cheiro de antisséptico e mofo era penetrante.

Ao fundo do corredor, uma porta de madeira pesada estava parcialmente aberta, deixando escapar o som de um monitor cardíaco apitando em um ritmo lento e constante.

Helena deu um passo em direção à porta, o coração batendo no compasso do aparelho. Ao se aproximar e olhar pela fresta, ela prendeu a respiração. Deitada na cama de hospital, coberta por fios e aparelhos de respiração, não estava uma criança ou seu irmão Lucas.

Deitada naquela cama, totalmente desacordada e aparentando exatamente a sua idade atual, estava a própria Helena.

Antes que ela pudesse processar a visão, uma mão pesada e quente pousou em seu ombro por trás. Helena se virou bruscamente e deu de cara com Gabriel. Ele estava normal, inteiro, sem deformações no rosto e sem o olho no peito, vestindo um terno impecável. Ele olhou para ela com uma mistura de pena e pavor, e apontou para a Helena desacordada na cama.

— Você precisa sair daqui antes que ela acorde, Helena — disse Gabriel em um sussurro aterrorizado. — Porque se a Helena da cama abrir os olhos e vir você… o mundo de fora vai deixar de existir.

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