Parte 4: Beatriz descobre que o sequestro e a doença do pai faziam parte de uma armação familiar envolvendo até sua irmã Sofia
O choque de ver meu pai ali, vivo e impecável, quase me paralisou. Minhas pernas fraquejaram, e o ar sumiu dos meus pulmões enquanto a porta do SUV se fechava com um baque abafado, trancando-nos na penumbra.
“Feche a boca, Beatriz. O espanto não combina com você”, disse meu pai, a voz firme e cortante, sem um pingo da fragilidade que ele fingia ter na cama de hospital. Ele tomou um gole lento do uísque, os olhos frios cravados em mim.
Antes que eu pudesse formular uma única palavra, Gabriel abriu a porta do motorista, entrou e lançou meu celular no painel. O motor roniu forte quando o veículo arrancou em disparada em direção à rampa de saída do subsolo, deixando para trás o eco abafado das minhas próprias dúvidas.
“Você… você fingiu tudo?” consegui balbuciar, o gosto de ferro do sangue e do desespero subindo pela minha garganta. “A UTI, os remédios… a clínica era um teatro?”
“Tudo tem um preço, minha filha”, meu pai respondeu, recostando-se no banco de couro. “E a sua ingenuidade foi o melhor investimento que fizemos. Aquela empresa nunca foi de Lucas. Ele era apenas o fantoche que colocamos na linha de frente para encobrir a sangria financeira que planejamos há anos.”
Minhas mãos tremiam, mas a névoa do medo começou a se dissipar, dando lugar a uma fúria incandescente. Eu havia lutado contra o inimigo errado o tempo todo. Meu próprio sangue havia vendido minha ruína.
O carro freou bruscamente ao atingir a rua escura, parando em frente a um armazém abandonado na zona portuária. Gabriel desligou o motor e olhou para trás, com um sorriso calculista.
“Chegamos”, disse Gabriel, descendo e abrindo a porta para o meu pai. Em seguida, ele virou-se para mim, destravando o cinto de segurança do meu lado com um puxão ríspido. “Agora, Beatriz, você vai assinar a transferência definitiva das ações. Ou seu pai faz questão de garantir que a clínica espalhe para a imprensa que você abandonou o próprio leito dele.”
Fui empurrada para fora do veículo, o vento frio da noite batendo no meu rosto enquanto os faróis altos do SUV iluminavam a fachada decrépita do armazém. No topo de uma escada metálica enferrujada, uma silhueta feminina observava tudo do alto.
A luz da lua cortou a penumbra, revelando o rosto de Sofia, minha irmã caçula, sorrindo calmamente enquanto segurava os documentos impressos em uma prancheta.