Os cacos do frasco âmbar morderam a palma de Clara com uma força que ela só percebeu quando o sangue quente começou a escorrer por entre seus dedos, manchando o tapete persa de tom carmesim. Ela não gritou. Seus pulmões pareciam comprimidos por uma prensa invisível enquanto observava Helena dar o primeiro passo por conta própria, o tecido de seda azul-real balançando com uma leveza que esmagava o peito de Clara. A multidão ao redor explodiu em um frenesi de palmas desconexas e murmúrios histéricos, mas os olhos daquele menino — os olhos profundos daquela criança que desafiava todas as leis da biologia — desprenderam-se de Helena e fitaram Clara através da multidão, como se ele pudesse ver o veneno seco grudado em sua alma.
O cão de guarda, agora solto e com o rabo abanando em um ritmo hipnótico, trotava ao lado de Helena, que tateava o próprio rosto incrédula, sentindo o rubor da vida pulsar em suas bochechas. O segurança da galeria tentou dar um passo à frente para interceptar a criança, mas o garoto ergueu a mão esquerda e o homem desabou pesadamente no chão, desacordado, sem que ninguém ao redor notasse a queda em meio à euforia geral. Clara deu mais dois passos para trás, tonta, tateando a parede de vidro à procura de uma saída. O frasco estilhaçado caiu de sua mão, mas o barulho do vidro quebrando foi abafado por uma onda de frio repentina que varreu o salão, fazendo as velas decorativas apagarem-se de uma só vez.
Na penumbra súbita, o reflexo de Clara no vidro escuro não mostrava mais o seu próprio rosto, mas sim o de um homem idêntico àquele que assinara a certidão de óbito de seu próprio pai, vinte anos atrás. Um soluço sufocado escapou de sua garganta. Ela girou nos calcanhares para correr até as portas de emergência, mas o corredor de mármore branco havia sumido, substituído por um túnel infinito de paredes espelhadas onde dezenas de reflexos seus fugiam em direções opostas, gritando sem som.
No centro do salão principal, envolta em uma aura dourada que pulsava no ritmo da batida cardíaca colossal, Helena ergueu a cabeça e encarou o vazio onde Clara desaparecera. Um sorriso frio, desconhecido para aquela mulher até poucos minutos antes, formou-se em seus lábios recém-revitalizados. Ela deu mais dois passos firmes em direção ao palco de exibições, ignorando o espanto da multidão, e olhou para o menino. — Onde está o resto deles? — perguntou Helena, com uma autoridade que fez o chão tremer sob os pés de todos os presentes. O garoto apontou o dedo mindinho para o teto de vidro, onde nuvens negras começavam a girar em um vórtice perfeito. — Estavam esperando você se levantar para começar o jogo.