Parte 3: Incêndio mortal revela segredos sombrios e golpe maquiavélico no coração da família Alencastro

O fogo lambia os painéis de madeira da sala com uma fúria ensurdecedora, transformando a luxuosa cobertura em uma fornalha viva. Sentada no chão, sufocada pela fumaça espessa que descia do teto, Mariana apertou o pequeno Tiago contra o peito. A carta recém-descoberta no bolso do marido rasgado queimava em sua mente com mais intensidade do que as próprias labaredas ao redor. O homem na foto amarelada não era o falecido patriarca da família Alencastro; os traços inconfundíveis daquela face jovem pertenciam ao motorista particular que servira a mansão na juventude de Helena — e cuja morte súbita, anos atrás, nunca fora investigada pela polícia.

Um gemido fraco interrompeu os pensamentos de Mariana. Mateo mexeu-se sob a densa cortina de fumaça, tossindo sangue e tentando empurrar o próprio corpo para cima. As costas da camisa estavam rasgadas onde o candelabro pesado o atingira, revelando hematomas roxos e profundos. O cheiro de carne queimada e tecido derretido tornava o ar irrespirável.

— Mariana… sai… daqui… — sussurrou ele, a voz cortada por espasmos de tosse. Ele tateou o chão de mármore quente à procura da esposa, os olhos arregalados de pânico ao ver o fogo avançar sobre o corredor que levava à saída principal.

— Mateo, o seu pai… o motorista… eu vi a foto! — gritou ela por cima do estalido das chamas, balançando o envelope no ar enquanto as lágrimas abriam sulcos de lama em seu rosto sujo de fuligem.

Mateo congelou por um segundo, a dor física momentaneamente esquecida. Seus olhos encontraram os papéis parcialmente carbonizados que caíram do bolso. Antes que ele pudesse articular qualquer palavra de defesa ou confissão, um som metálico e seco ecoou no hall do elevador.

A porta de serviço dos fundos, que deveria estar trancada eletronicamente, abriu-se de supetão com um chute brutal. Pela fumaça densa que invadia o apartamento, uma silhueta alta surgiu empunhando uma maleta de metal. Era o advogado da família, Dr. Silveira, com um sorriso gélido nos lábios que não combinava com o cenário de morte iminente.

— Ora, ora… que bela reunião de família — disse Silveira, cobrindo o nariz com um lenço de linho branco enquanto caminhava calmamente em meio ao fogo, ignorando as chamas que quase tocavam seus sapatos de grife. — Parece que a senhora Helena esqueceu de um pequeno detalhe antes de fugir.

Mateo tentou se erguer, colocando-se na frente de Mariana e do bebê, embora suas pernas falhassem.

— O que você está fazendo aqui, Silveira? Foi você quem vazou o exame para a minha mãe! — rosnou Mateo, cuspindo sangue.

— Vazou? Eu diria que apenas acelerei o inevitável, meu caro bastardo — respondeu o advogado, abrindo a maleta e retirando dela um calhamaço de documentos com assinaturas falsificadas. — A herança dos Alencastro nunca pertenceu a nenhum de vocês. E com este incêndio consumindo os registros originais no cofre da parede… o espólio passará integralmente para a fundação que eu controlo.

Mariana sentiu o sangue gelar nas veias. O incêndio não fora apenas um surto de loucura de Helena; era o plano de um golpe arquitetado nas sombras há anos. Mas antes que Silveira pudesse dar mais um passo em direção a eles, o teto acima de suas cabeças estalou com um som aterrador de vigas de sustentação cedendo sob o calor extremo.

Um pedaço colossal do teto de gesso despencou exatamente entre o advogado e o casal, levantando uma cortina impenetrável de brasas e poeira escaldante.

Através da névoa de fogo, Mariana ouviu o grito de dor de Silveira soterrado pelos escombros do teto, enquanto as chamas finalmente bloqueavam a única rota de fuga restante para a varanda.

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