Parte 3: Achantada por ameaças contra a família e traída por pessoas de confiança, Beatriz é emboscada em um estacionamento e descobre uma conspiração liderada pelo próprio pai
A respiração do garçom era calma, quase debochada, enquanto ele mantinha o celular erguido em minha direção. O tempo parecia ter desacelerado. No topo da escada, o caldo morno que ainda secava em meu pescoço começou a esfriar, transformando-se em um peso gélido contra a minha pele. Olhei para a foto de Sofia na tela — o terror visível nos olhos da minha irmã de apenas dezessete anos fazia meu sangue borbulhar de raiva e pavor.
Três minutos. O contador invisível já havia começado a correr.
Girei sobre os calcanhares e refiz meus passos em direção à mesa. A postura que eu havia construído com tanto esforço fraquejou por um segundo, mas forcei meus ombros para trás. Lucas ainda estava paralisado, a mão suspensa no ar onde o gravador esteve momentos antes. Valéria tentava recompor o cabelo desgrenhado, massageando a bochecha vermelha enquanto rosnava impropérios baixinho.
“Mudou de ideia tão rápido, Beatriz?” Lucas debochou, embora a incerteza ainda tremesse em sua voz. “Viu que não tem para onde correr?”
Não respondi. Meu olhar deslizou dele para Valéria, tentando decifrar se a mulher realmente não sabia de nada. A expressão dela era pura fúria mesquinha, a indignação fútil de uma matriarca aristocrática que havia levado um tapa. Ela não tinha a frieza necessária para orquestrar um sequestro em tempo real. Quem quer que estivesse usando aquele garçom usava Valéria apenas como uma cortina de fumaça.
Enfiei a mão no bolso, tirei o pequeno gravador e o lancei sobre a mesa. O aparelho deslizou pela toalha manchada e bateu na base de vidro do copo quebrado.
“Peguem”, disse, a voz falhando ligeiramente, odiando a fraqueza que deixei transparecer. “O gravador é de vocês.”
Valéria avançou como uma ave de rapina, agarrando o dispositivo contra o peito com um suspiro triunfante. Lucas soltou o ar que prendia, um sorriso arrogante voltando a se desenhar em seus lábios. Ele se levantou devagar, abotoando o terno de grife, achando que havia vencido.
“Sabia que você seria racional”, disse Lucas, dando um passo em minha direção. “Agora, peça desculpas à minha mãe e talvez eu não cancele o financiamento do tratamento do seu pai.”
Olhei de relance para a pérgola. O garçom abaixou o celular, digitou algo rapidamente e me encarou de novo. Meu telefone vibrou no mesmo instante.
O gravador não basta. Ele quer o arquivo original. Vá para o subsolo do estacionamento. Sozinha.
Engoli em seco. Meu pai? O financiamento do tratamento dele? Olhei para Lucas, a confusão se misturando ao pavor. Meu pai estava internado há seis meses em uma clínica particular, e eu acreditava que o seguro da empresa da minha família cobria os custos.
“O que você fez com o meu pai, Lucas?” perguntei, a voz mal passando de um sussurro.
Lucas sorriu, o olhar vazio de qualquer humanidade. “Você realmente achou que o seguro cobria aquela UTI VIP? Eu comprei a dívida da clínica há três meses, Beatriz. Se você der mais um passo errado, desligam os aparelhos dele antes da meia-noite.”
O chão pareceu sumir sob meus pés. Eles não queriam apenas me humilhar ou roubar o projeto do porto; eles haviam cercado cada membro da minha família como gado no matadouro. A chantagem com Sofia, a dívida de meu pai, a humilhação pública. Tudo fora meticulosamente calculado.
Mas a ganância de Lucas cimentou seu próprio ponto cego. Ele achava que o controle era dele.
Senti o celular vibrar novamente na minha mão. O garçom começou a se afastar, caminhando a passos largos em direção às portas de serviço que levavam aos fundos do restaurante.
Sem dizer mais uma palavra para Lucas ou Valéria, virei as costas.
“Beatriz! Eu não mandei você sair!” o grito de Lucas ecoou atrás de mim, seguido pelo barulho de uma cadeira sendo arrastada com violência.
Apressei o passo, ignorando os olhares dos convidados que ainda filmavam a cena. Atravessei a porta de vidro que dava para a recepção e desci os degraus de emergência em direção ao subsolo. O som dos meus saltos estalando no concreto ecoava no poço da escada como batidas de um tambor de guerra. O cheiro de gasolina e umidade tomou conta do ar à medida que eu descia.
Cheguei ao nível -2 do estacionamento. As luzes fluorescentes piscavam, lançando sombras longas entre os carros luxuosos alinhados nas vagas. O silêncio ali era denso, quebrado apenas pelo gotejar distante de um cano vazando.
“Estou aqui!” gritei, a voz ecoando pelas paredes de concreto cinzento. “Solte a minha irmã!”
Uma porta de metal à esquerda se abriu devagar. O garçom saiu de lá, mas já não vestia o avental. Usava uma jaqueta de couro preta e trazia as mãos nos bolsos. Ele parou a poucos metros de mim.
“Você é obediente, Beatriz. Isso facilita as coisas”, disse ele, a voz estranhamente familiar.
Ele levou a mão ao rosto e retirou a peruca curta e o bigode postiço que usava.
O ar fugiu completamente dos meus pulmões. Não era um capanga qualquer.
Era Gabriel. O meu advogado, o homem em quem depositei todas as provas do processo contra a família de Lucas, o único amigo em quem confiei nos últimos cinco anos.
“Gabriel…?” murmurei, recuando um passo, chocada. “Por quê?”
Ele deu um sorriso triste, quase piedoso. “Porque você só enxerga o que Lucas faz, Beatriz. Você nunca percebeu quem realmente mandava naquela empresa.” Gabriel tirou um controle remoto do bolso e pressionou o botão.
Atrás de mim, o barulho de um motor potente ganhou vida. As luzes de um SUV preto acenderam, iluminando minhas costas com um facho de luz cegante. O barulho de travas elétricas se abrindo ressoou na garagem.
Antes que eu pudesse me virar, uma mão coberta por uma luva de couro cobriu minha boca por trás, enquanto um braço de ferro envolveu minha cintura, me içando do chão. Me debati desesperadamente, chutando o ar, mas o aperto era implacável.
“Não se preocupe”, Gabriel disse, aproximando-se e pegando meu celular direto do meu bolso. “Sua irmã nunca esteve naquele carro. A foto era de três dias atrás. Mas você… você acabou de entregar exatamente o que precisávamos.”
Ele mostrou a tela do meu próprio telefone, onde um aplicativo de transferência de arquivos exibia uma barra de progresso em verde: 100% Concluído.
A porta do SUV se abriu ao meu lado. Fui jogada sem cerimônia no banco de trás. Quando tentei me levantar, deparei-me com a pessoa sentada no canto sombrio do veículo, segurando um copo de uísque.
A luz da garagem bateu de raspão no rosto do passageiro.
Não era um estranho. Era meu pai, perfeitamente saudável, vestindo um terno sob medida, olhando para mim sem o menor traço de afeto.