Part 3: Revelações chocantes na adega expõem o envenenamento de Helena, o envolvimento do médico da família e a reviravolta estarrecedora de que ela continua viva
O suor frio escorreu pela nuca de Mateus antes mesmo que a sua mente pudesse processar o horror diante dos seus olhos. Ele congelou no meio do passo, o corpo de Sofia ainda pressionado contra o seu peito. A luz fraca da adega reluzia no pequeno frasco de ampola translúcida, onde uma gota de líquido viscoso balançava lentamente sobre o papel amarelado.
Vanessa, caída sobre a poça de vinho rubi e cacos de cristal, soltou uma risada rouca e gutural. O sangue que corria do seu corte no braço misturava-se ao álcool no chão, mas os seus olhos brilhavam com um triunfo maquiavélico.
— Você achou mesmo que o vilão desta história era eu, Mateus? — debochou ela, apoiando-se nos cotovelos para se levantar devagar, sem se importar com os cacos que perfuravam a sua pele. — Conte a ela. Conte para a sua filhinha o que você colocava no chá da mãe dela todas as noites.
— Cale a boca! — urrou Mateus, a voz falhando em um misto de pânico e desespero puro. Ele tentou cobrir os ouvidos de Sofia, mas a garotinha já estava olhando para o chão, os olhos bem abertos fixos no bilhete.
No papel, escrito com a sua própria letra inconfundível, inclinada e firme, liam-se as instruções letais de dosagem da substância que matara Helena. A sua esposa não morrera de causas naturais. Ela fora envenenada sistematicamente, grama por grama, dia após dia.
Sofia desvencilhou-se do abraço do pai com uma força assustadora para uma criança de cinco anos. Ela caiu de joelhos no piso ensanguentado, os olhos alternando entre o frasco e o rosto empalecido de Mateus. A respiração da menina tornou-se um chiado agudo.
— Papai… você… você fez a mamãe dormir para sempre? — a voz de Sofia saiu como um sopro gélido que congelou o ar da sala.
— Não! Sofia, meu amor, olhe para mim! Isso é uma armadilha! Eu nunca… eu jamais faria isso! — Mateus ajoelhou-se desesperado, tentando tocar os ombros da filha, mas a criança recuou horrorizada, soltando um grito mudo que rasgou o silêncio da adega.
Vanessa deu dois passos à frente, limpando o sangue do rosto com as costas da mão. O seu sorriso era puro veneno.
— Ele mentiu para você, Sofia. O seu pai amoroso destruiu a sua mãe para ficar com a herança dos dinamarqueses. E adivinhe quem ajudou a conseguir a substância? — Vanessa deu um tapinha leve no próprio peito. — Mas ele se esqueceu de um detalhe… eu guardei as provas.
A mente de Mateus girava em um turbilhão descontrolado. Ele se lembrava de ter assinado aquele papel anos atrás, mas era para a compra de um pesticida para a vinícola. Alguém havia adulterado os documentos e escondido o frasco dentro do brinquedo de Sofia. A teia de manipulação era infinitamente mais profunda do que ele imaginava.
Antes que Mateus pudesse avançar contra Vanessa, um som seco de passos ecoou no topo da escada de pedra da adega. As luzes principais do teto piscaram três vezes e se apagaram completamente, mergulhando o ambiente na penumbra avermelhada das luzes de emergência.
Passos pesados e ritmados começaram a descer os degraus de basalto.
— Ninguém sai deste subsolo — disse uma voz grave e cavernosa vinda do escuro da escadaria. Não era uma voz desconhecida. Era a voz do Dr. Gustavo, o médico da família que atestara a morte de Helena por «causas naturais».
Mateus colocou-se imediatamente na frente de Sofia, o coração batendo violentamente contra as costelas. Gustavo emergiu da sombra, vestindo um sobretudo escuro e segurando um revólver pesado com um silenciador acoplado ao cano.
— O teatro acabou, Mateus — disse Gustavo, mantendo a arma apontada com firmeza para o peito dele. — A Vanessa foi gananciosa demais tentando pegar o código do cofre antes da hora, mas o resultado final será o mesmo.
— Você… você estava mancomunado com ela o tempo todo? — perguntou Mateus, os dentes trincados de raiva.
— Com ela? — Gustavo soltou uma gargalhada fria, trocando um olhar de desprezo com Vanessa. — A Vanessa é apenas uma peça descartável no tabuleiro, assim como você. Ela achava que ficaria com a metade. Que ingênua.
A cor fugiu do rosto de Vanessa instantaneamente. A confiança nos olhos dela ruiu em um segundo.
— Do que você está falando, Gustavo? Nós tínhamos um acordo! — exclamou Vanessa, dando um passo involuntário para trás.
— O acordo mudou no momento em que a garota começou a desenhar — respondeu Gustavo, sem desviar o foco de Mateus. — Sofia não estava desenhando uma mulher com uma tesoura, Mateus. Ela nunca desenhou a Vanessa. A mulher do desenho… é a própria mãe dela.
O impacto das palavras de Gustavo fez o chão desaparecer sob os pés de Mateus. Ele olhou para trás, para a filha. Sofia estava imóvel, as mãos cobrindo a boca, as lágrimas limpando o sangue do rosto.
— A Helena não está morta, Mateus — sussurrou Gustavo, dando mais um passo à frente enquanto o gatilho do revólver começava a ser pressionado. — E ela acabou de dar a ordem para terminar o serviço.